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A Amazônia na Europa

Amazônia Real - sex, 24/11/2017 - 11:25

Em plena febre de tensão e interesse causada pelo terrorismo, a Amazônia voltou a ser incluída na agenda da Europa, em encontros realizados em Bonn, na Alemanha, e Londres, na Inglaterra, na semana passada. Dos debates participou o mundo oficial, representado pelo ministro do Meio Ambiente do Brasil, Sarney Filho, os governadores dos Estados da Amazônia Legal e até tradicionais lideranças indígenas, como Raoni, com seu toque de exotismo que tanto mexe com a consciense mauvaise dos europeus.

Os debates trataram dos temas ecológicos de sempre, mas também se estenderam pela sua relação com a economia de baixo carbono na região amazônica e a necessidade de o crescimento respeitar as culturas regionais. Ambas as perspectivas se mostram atraentes o suficiente para fazer o isolacionista Reino Unido aderir à Alemanha e à Noruega na luta pela preservação da Amazônia.

O Brasil repetiu seu compromisso, firmado no acordo de Paris, de impor desmatamento zero na região até 2030, recebendo o eco dos Estados, uníssonos quando se trata de bater à porta do euro (como do dólar). Com isso, os entendimentos visaram a cooperação internacional, o financiamento da proteção florestal e a contribuição dos fundos internacionais e das entidades privadas para incrementar a conservação do bioma amazônico. Tudo isso sustentado pelo anúncio de que o desmatamento diminuiu no ano passado.

Em Bonn, a ONG de jovens Engajamundo entregou para o governador do Pará, Simão Jatene o título de MC desmata e o disco de platina do hit “não Para de desmatar” (Foto: Engajamundo)

Como uma estatística escolhida a dedo sempre ajuda a sustentar uma tese, por mais temerária que seja, o governador do Pará, Simão Jatene, comunicou, aos mais de 100 especialistas que o ouviam na capital inglesa, que a área desmatada no Estado que comanda há mais de 11 anos diminuiu de 8,8 mil quilômetros quadrados em 2004 para 2,4 mil km² em 2016. “Assim, a média anual de desmatamento no estado caiu mais de 70% em 13 anos”.

É verdade. Mas uma verdadeira compreensão da situação exigiria de Jatene que se referisse ao acumulado de desmatamento em 2004, às taxas anuais concretas até 2015 e à expectativa de crescimento em 2017, colocando a estatística de volta à tendência de crescimento. Ziguezague de muitos anos que torna a meta de desmatamento zero inverossímil. Mas, como sempre, repetida a cada novo ano de frustração sob o compromisso de que, desta vez, chegaremos lá.

A agressão às áreas protegidas da Amazônia é de tal envergadura, desafiando o acompanhamento em tempo real por satélites e a ação mais dura da fiscalização, que a atitude do governo parece ser a remediação ou a compensação pelos danos.

O Pará, o que mais áreas desmatadas apresenta e o segundo em proporção relativamente ao seu tamanho (de 1,2 milhão de quilômetros quadrados, do tamanho da Colômbia), tem sido também o que mais abre florestas a concessões privadas, sem estrutura de gestão à altura do desafio.

O resultado é o mesmo: entre subidas e descidas, o rumo do desmatamento segue à distância da meta da proteção total às florestas. Pelo motivo simples de que é mais barato derrubar mata do que preservá-la e é muito mais caro recuperar o que foi degradado.

Não surpreende, diante dessa sanha irracional e caótica, que o Pará vá às capitais europeias pedir dinheiro para salvar a natureza tendo o município com o maior rebanho bovino, São Félix do Xingu, que, um dia, teve vocação florestal.

 

A fotografia que ilustra este artigo de área de desmatamento ilegal no Sul do Pará (Foto: Alberto César Araújo/Amazônia Real)

 

Lúcio Flávio Pinto é jornalista desde 1966. Sociólogo formado pela Escola de Sociologia e Política de São Paulo, em 1973. Editor do Jornal Pessoal, publicação alternativa que circula em Belém (PA) desde 1987. Autor de mais de 20 livros sobre a Amazônia, entre eles, Guerra Amazônica, Jornalismo na linha de tiro e Contra o Poder. Por seu trabalho em defesa da verdade e contra as injustiças sociais, recebeu em Roma, em 1997, o prêmio Colombe d’oro per La Pace. Em 2005 recebeu o prêmio anual do Comittee for Jornalists Protection (CPJ), em Nova York, pela defesa da Amazônia e dos direitos humanos. Lúcio Flávio é o único jornalista brasileiro eleito entre os 100 heróis da liberdade de imprensa, pela organização internacional Repórteres Sem Fronteiras em 2014. Leia mais aqui. Veja outros artigos do autor.

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Grileiros e madeireiros invadem PDS Virola-Jatobá, criado por Dorothy Stang no Pará

Amazônia Real - qua, 22/11/2017 - 20:03

Incra e Polícia Federal já foram chamados, mas comunitários continuam na insegurança (Foto da casa da missionária em Anapu/Alberto César Araújo)

 

Belém (Pará) – O município de Anapu, no oeste do estado do Pará, ficou marcado pelo brutal assassinato da missionária norte-americana Dorothy Mae Stang, em fevereiro de 2005. Mas apesar da repercussão internacional do crime, a grilagem de terras, o desmatamento ilegal e as ameaças de morte contra as famílias de trabalhadores rurais continuam recorrentes. No último dia 15 de novembro, o assentamento agrário do Projeto de Desenvolvimento Sustentável (PDS) Virola-Jatobá, legado da missionária, foi invadido por cerca de 200 homens, entre grileiros e madeireiros ilegais. Armados, eles demarcaram lotes de terra medindo de 100 a 200 hectares, e estão oferecendo a posseiros.

A informação da invasão ao assentamento é da Associação Virola-Jatobá do PDS Anapu e da Cooperativa de Produtores Agrícolas Orgânicos e Florestais do PDS Virola-Jatobá. Segundo as organizações, um pedido de segurança e solicitação de providências para retirada dos invasores da área foram enviados ao Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) e à Polícia Federal no Pará, mas não obtiveram respostas até o momento.

A associação diz que a maior parte dos invasores do PDS Virola-Jatobá é de madeireiros e grileiros dos municípios de Anapu e de São Geraldo do Uruguaia. Integrantes da associação contam que os invasores ameaçam queimar um alojamento, construído pelos comunitários, onde estão armazenados equipamentos para o manejo florestal e as madeiras exploradas de forma sustentável, aguardando o transporte e comercialização.

Um dos comunitários, que preferiu não ter o nome divulgado, disse que boa parte dos invasores anda armado no PDS Virola-Jatobá. Com a situação, segundo ele, os assentados pedem segurança no local. “A área está toda loteada [cerca de 22 mil hectares] cheia de grileiros. Esse é o local que íamos utilizar para o manejo florestal do ano que vem. A gente queria mesmo é que tirassem o povo de lá, porque estamos com medo do que pode acontecer”, afirma o comunitário.

O PDS Virola-Jatobá é um assentamento regularizado pelo Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária, em 2002. As atividades de manejo florestal comunitário, que eram os ideais de Dorothy Stang, são desenvolvidas atualmente pela Associação e Cooperativa do PDS, com apoio financeiro do Incra e assessoria da Universidade Federal do Pará (UFPA) e Embrapa.

 

Pressão fundiária aumentou

Invasores abriram clareira em área da Reserva Legal do PDS Virola-Jatobá (Foto: Reprodução)

Os antropólogos e engenheiros agrônomos Roberto Porro e Noemi Miyasaka Porro, que são pesquisadores, respectivamente, da Embrapa Amazônia Oriental e do Instituto Amazônico de Agriculturas Familiares, da Universidade Federal do Pará (UFPA), trabalham com as famílias do PDS Virola-Jatobá.

Em documento enviado aos órgãos federais e à agência Amazônia Real, os pesquisadores denunciam que, se os invasores destruírem o armazém do projeto, contendo seis mil metros cúbicos de madeira, “o prejuízo seria de mais de um milhão e meio de reais, gastos pelas famílias na infraestrutura e na operação”. 

No documento, os pesquisadores relatam o agravamento da insegurança com as invasões de grileiros e madeireiros, que se intensificaram nos últimos meses. “A situação do PDS Virola-Jatobá agravou-se nos últimos meses devido às crescentes pressões de setores contrários a efetivas políticas fundiárias e ambientais na Amazônia, e, em particular, devido à desarticulação da atuação do Incra em Anapu.”

Segundo os pesquisadores Roberto Porro e Noemi Miyasaka Porro, 27 alertas sobre invasões, grilagem, desmatamento e ocupação irregular no PDS Virola-Jatobá foram enviados nos últimos dois anos e seis meses aos órgãos como Incra, ao Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), à Secretaria de Meio Ambiente (Semas), ao Ministério Público Federal (MPF), ao Ministério Público Estadual (MPE), ambos no Pará, e à Procuradoria Geral da República (PGR), em Brasília. Até o momento, as denúncias de invasão e ocupação irregular não foram atendidas, o que fortalece as ações ilegais.

A Amazônia Real procurou a presidência do Incra, em Brasília, nesta quarta-feira (22) e solicitou informações sobre as providências tomadas pelo órgão para a segurança das famílias do PDS Virola-Jatobá. A assessoria de imprensa informou que uma reunião na Corregedoria estava sendo realizada com o representante do Incra de Altamira, responsável pela jurisdição de projetos de assentamentos em Anapu. No final da reunião seria divulgada uma nota à imprensa sobre o caso, o que não aconteceu até o momento.     

O PDS Virola-Jatobá fica a 25 km da rodovia BR 230, a Transamazônica, em Anapu. Foi criado antes da morte de Dorothy Stang. Ela, que também idealizou o Projeto de Desenvolvimento Sustentável Esperança, criou um modelo de assentamento que garantisse às famílias dos agricultores uma renda baseada na gestão da retirada de madeira, sem destruir a floresta – o manejo madeireiro sustentável. Atualmente, 156 famílias vivem nos 39.385 hectares do PDS Virola-Jatobá.

Dorothy Mae Stang foi assassinada aos 73 anos, com seis tiros dentro do PDS Esperança, em Anapu, no dia 12 de fevereiro de 2005. Na ocasião, ela lutava pela implantação do projeto de conservação da Floresta Amazônica para as comunidades extrativistas do assentamento. Os cinco acusados pelo crime foram julgados e condenados, mas nem todos cumprem prisão por brechas da própria legislação penal, o que gerou impunidade no caso. Leia aqui

 

Ameaças constantes

Abertura da floresta na Reserva Legal pelos invasores (Foto: Reprodução)

Roberto Porro, pesquisador da Embrapa Amazônia Oriental, diz que a situação de tensão no PDS Virola-Jatobá já dura dois meses. “A associação voltou a fazer em outubro novas denúncias ao Incra, que não intercedeu. Na semana passada estive no local e presenciei o movimento de invasores vindo da cidade. As ameaças ao PDS não são de hoje e, pior, são constantes”, afirma.

Porro explica que esse é um momento importante para o assentamento, porque eles estão na reta final da colheita do manejo florestal comunitário. Ou seja, a madeira seria transportada para a capital do Pará, Belém, ainda em novembro. O valor da negociação seria destinado não só para as famílias assentadas, mas também para garantir a manutenção de uma segunda etapa do projeto.

 

 

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“O Brasil sempre foi um país colonizado, com uma República mascarada”, diz Milton Hatoum

Amazônia Real - qua, 22/11/2017 - 19:16

O escritor amazonense lança no dia 4 de dezembro o romance “A Noite da Espera” , na Banca do Largo, no Largo São Sebastião, em Manaus  (Foto: Marcos Vilas Boas/Companhia das Letras)

 

Milton Hatoum dedicou seus últimos cinco livros à ficção retratando a Amazônia, em particular Manaus, em tom lírico e dramático, inspirado em eventos repletos de passagens e metáforas familiares.

A Manaus de sua memória está presente nos romances “Relato de um Certo Oriente” (1989), “Dois Irmãos” (2000) e “Cinzas do Norte” (2005). Também há menções à cidade em “Órfãos do Eldorado” (2008), em que ele acrescentou elementos de realismo-fantástico, e no livro de contos curtos “A Cidade Ilhada” (2009), quando o escritor surpreende com uma boa dose de humor.

Este sabor amazônico da Manaus provinciana está fora de sua ficção pela primeira vez. No recém-lançado “A Noite da Espera”, que integra a série “O Lugar Mais Sombrio”, o escritor amazonense transpõe o leitor para outros domínios da literatura e da realidade brasileira de um passado recente: o período da ditadura militar (1964-1985).

A história se passa nas décadas de 1960 e 1970, em Brasília, cidade onde Hatoum morou e estudou por pouco mais de dois anos, na juventude.

“A Noite da Espera” não é um livro político, como o escritor faz questão de destacar. O protagonista, o jovem Martim, sequer é politizado ou se envolve em militância partidária. Seu drama é interior, irredutível com a separação dos pais e magoado com a mãe. Os outros dois volumes (ainda sem títulos) estão previstos para 2018 e 2019.

“Martim é um personagem construído, não sou esse cara, que está um pouco longe da minha vida, se não muito longe. Eu precisava desse personagem para armar a trama, mas a partir de uma observação, de uma vivência”, disse Milton Hatoum, em entrevista concedida à reportagem no último domingo (19).

Hatoum estará em Manaus no dia 4 dezembro para lançar “A Noite da Espera”. Na ocasião, ele fará uma sessão de autógrafos a partir das 18h30 na Banca do Largo, no Largo São Sebastião, ao lado do Teatro Amazonas. O evento conta com o apoio da agência Amazônia Real.

No dia seguinte (05), ele fará uma palestra no auditório da Reitoria da Universidade do Estado do Amazonas (UEA), às 10h. E, no mesmo dia, receberá os leitores para uma sessão de autógrafos às 19h na Livraria Saraiva do Manauara Shopping, na zona centro sul de Manaus.

Os volumes que compõem “O Lado Mais Sombrio” são resultados de uma longa gestação – começou a escrevê-los em 2008. Também revela uma desconfortável coincidência no pano de fundo, que é o clima conservador refletido em manifestações de parte da sociedade brasileira. Embora não tenha previsto, Hatoum conta que não se surpreende com o atual momento político.

“O Brasil sempre foi um país colonizado, com uma república mascarada. Logo no nascimento da República houve o massacre de Canudos, só pra falar do mais conhecido. A República foi inaugurada com o que hoje seria considerado um genocídio. Depois os períodos de autoritarismo, o Estado Novo. Democracia plena, acho que nunca tivemos”, diz.

Sempre atento e inquieto com o que acontece no país e na Amazônia, nessa entrevista à Amazônia Real ele demonstra preocupação com o que se passa na região. “Não há uma reflexão, não há um projeto para a Amazônia. O que ela significa para o Brasil e para a humanidade.”

Também faz críticas aos parlamentares brasileiros, citando especificamente o senador Romero Jucá (PMDB-RR). “O Jucá deveria ser julgado pela corte de Haia. Ele é um criminoso desde a época da Funai, no final dos anos 80”, afirma.

Milton Hatoum expressa o que sente ao retornar a Manaus e conta novidades sobre projetos em curso envolvendo suas obras anteriores. Apesar das desilusões, Manaus continua sendo a cidade que mais lhe comove. “Apesar de todas as iniquidades, da destruição, da pobreza, da violência, sempre me emociona. Isso só acontece quando volto para Manaus. Não acontece quando volto para Brasília, para Paris ou São Paulo”, diz. Leia a entrevista:

 

Amazônia Real – A exclusão de Manaus em “A Noite da Espera” é a ruptura com a cidade?

Milton Hatoum – Não foi uma ruptura. Eu escrevo sobre uma experiência de vida. Vivi em outras cidades. Vivi em Brasília na minha juventude. Depois em São Paulo, na década de 70. Depois na Espanha e na França. Essa experiência, que é muito difusa, de vários lugares, está presente no que escrevo. Não é ruptura. É apenas um prosseguimento da escavação da memória, à vida que eu levei em Brasília, que foi um momento muito duro. Você não é obrigado a escrever sobre o mesmo lugar, sobre sua cidade. Mesmo porque vivi em tantos lugares e carrego dentro de mim essa experiência.

 

Amazônia Real – Como foi o período em que viveu em Brasília, e o que tem de ficção e experiência pessoal no personagem?

Milton Hatoum – Morei em Brasília por mais de dois anos. Meu colégio foi fechado, como está no romance. Mas Martim é um personagem construído, não sou esse cara, está um pouco longe da minha vida, se não muito longe. Eu precisava desse personagem para armar a trama. É claro que os personagens são construídos, são elaborados. São inventados. Mas isso a partir de uma observação de uma vivência. Conheci alguns jovens como ele. Tive contato com diferentes tipos de pessoas, todos jovens. Eu não queria, como narrador, um personagem militante, politizado, ao contrário. Quem é militante e politizada é a namorada dele, a Dinah. O drama dele não é exatamente a ditadura e política. O drama dele, a amargura dele, é a separação da mãe.

 

Amazônia Real – A figura feminina está presente fortemente em seus romances. Como se dá essa escolha?

Milton Hatoum – A separação da mãe é um dos motivos centrais do romance. As mães são fundamentais em nossas vidas. Isso sempre foi uma escolha da minha ficção. O primeiro romance, “Relato de um Certo Oriente”, foi narrado por uma mulher. As personagens femininas aparecem com muita força nos outros romances. No “Dois Irmãos” tem a Zana e a Domingas, por exemplo. Tem em “Cinzas do Norte”. Em “Órfãos do Eldorado” tem a Dinaura, personagem que desaparece e é responsável pela loucura dele (protagonista Arminto Cordovil). Na literatura há grandes personagens femininas. A gente se alimenta delas.

 

Amazônia Real – Em que momento se deu o início da construção do livro?

Milton Hatoum – Eu não achava que o romance ia dialogar com o que está acontecendo no tempo presente porque eu comecei a escrever em 2008. O Brasil estava quase no paraíso. Mas, às vezes, a ficção, mais do que o autor, dá um salto. O autor não pensa, mas a ficção pensa nesse diálogo com o presente. Eu fiz os três volumes de uma enfiada. E ficou muito longo. Aí eu dividi em três partes. Cabia muito essa divisão. Hoje não dá para fazer um volume de 800 páginas, seria absurdamente caro para os padrões brasileiros.

 

Amazônia Real – Você sempre enfatizou que escreve devagar. Até destaca que sua obra completa é pequena, isso em relação a outros autores. É difícil escrever?

Milton Hatoum – É dificílimo. Tem uma frase em “Caetés”, romance do Graciliano Ramos (1892-1953), em que ele diz que o mais difícil é escrever. É difícil escrever um romance. Escrever honestamente, falar de uma verdade íntima, trabalhar com a linguagem, construir personagens, conflitos. São tantos detalhes, tantos pormenores, você não escreve isso de um dia para a noite. Exige muita paciência. É uma coisa longa. Às vezes mesmo um poema. O João Cabral de Melo Neto (1920-1999) escrevia um poema e só publicava dez, quinze anos depois. Há casos assim. Não só o Cabral, mas outros poetas. A literatura é arte mais reflexiva. Não é como cinema. Um livro você lê, descobre muitas coisas.

 

Amazônia Real – Você acha que é uma triste coincidência o livro passar num período em que a gente imaginava estar enterrado, com valores conservadores resgatados e com pessoas pedindo o retorno do regime militar? O que se pode apreender com isso?

Milton Hatoum – Não me surpreendo muito com o que está acontecendo. O Brasil sempre foi um país colonizado, com uma República mascarada. Logo no nascimento da República houve o massacre de Canudos, só para falar do mais conhecido. A República foi inaugurada com o que hoje seria considerado um genocídio. Depois os períodos de autoritarismo, o Estado Novo. Democracia plena, acho que nunca tivemos.

 

Amazônia Real – Não é algo tão extraordinário, no seu ponto de vista?

Milton Hatoum – Isso não me surpreende porque a nossa história é muito autoritária. É a história do colonialismo, do privilégio, dos conchavos das elites, enfim. E agravada pelos erros gravíssimos do PT. Não podemos desconsiderar isso. O PT se iludiu. A coisa do poder, de compor para permanecer no poder. Cedendo à pressão dos golpistas. Ele se equivocou bastante na estratégia do poder. O troco vem com uma reação muito forte. De modo que essa reação não me surpreende.

E tem toda essa violência contra os artistas, a arte, tudo isto está enraizado em nosso conservadorismo. São pessoas muito ignorantes, muito toscas. Mas não se pode silenciar.

O escritor Milton Hatoum (Foto: Edward Pimenta)

Amazônia Real – A Amazônia tornou-se pauta novamente das grandes discussões do país. Você tem acompanhado a pressão das forças políticas conservadoras sobre a região?

Milton Hatoum – Eu tenho acompanhado [as notícias], inclusive na Amazônia Real, no ISA (Instituto Socioambiental), no jornalismo que fala de modo mais independente e verdadeiro. No golpe parlamentar, isso [pressão sobre a Amazônia] era uma das pautas. Um dos acordos com a bancada ruralista. Isso também não me surpreende. Toda essa bancada está muito comprometida. Tem o Jucá [senador Romero Jucá], que deveria ser julgado pela corte de Haia, ele é um criminoso, desde a época da Funai, no final dos anos 80. Permitiu a entrada de garimpeiros na terra dos Yanomami (Roraima) e no Vale do Guaporé (Rondônia). Causou várias mortes por causa disso. Ele nunca parou de ser esse crápula.

Tem a redução, se não o fim, das áreas de preservação, as mineradoras. Tudo isso foi conversado antes do golpe. Não que eu goste da Dilma. A política dela para a Amazônia foi desastrosa. A política ambiental e indígena foi desastrosa. Eu não defendo a política econômica, ambiental e indígena da senhora Dilma Rousseff. Agora ela foi eleita. Sou totalmente contra o golpe parlamentar, sempre fui.

 

Amazônia Real – São questões que nunca fizeram parte das pautas de nenhum governo, independente do perfil ideológico?

Milton Hatoum – A preservação da natureza e da delimitação da terra indígena nunca foram preocupações nem da esquerda nem da direita. A Amazônia nunca foi preocupação. Só querem usá-la como uma área extrativista, e danem-se os índios, os caboclos da Amazônia. Não há uma reflexão, não há um projeto para a Amazônia. O que ela significa para o Brasil e para a humanidade.

 

Amazônia Real – Como estão seus projetos atuais? Tem adaptação em curso de outro romance?

Milton Hatoum – Estou trabalhando no segundo volume de “O Lugar Mais Sombrio”. Comecei a revisar o segundo, tem muita coisa que vai ser maior. Há vários projetos de adaptação para o cinema. Um é do Marcelo Gomes, diretor de “Cinemas, Aspirina e Urubus”. O Marcelo vai filmar o “Relato de um Certo Oriente”. É um livro difícil de filmar. O roteiro é dele e da Maria Camargo, que fez o roteiro de “Dois Irmãos”.

Tem um conto de “A Cidade Ilhada”, “O Adeus do Comandante”, que vai ser filmo ado pelo Sérgio Machado, que fez “Cidade Baixa” e “Quincas Berro D´Água”. O Sérgio está fazendo o roteiro com a Maria Camargo. Ela virou a minha roteirista oficial. E eu ajudei também. O do Sérgio vai ser rodado uma parte em Manaus, em junho. O roteiro ganhou todos os prêmios, todos os recursos. Eu não me envolvo muito com o processo todo. Mas eu converso com eles. O roteiro do “Adeus ao Comandante”, colaborei um pouco e estou acompanhando de perto.

 

Amazônia Real – Milton, você é um dos autores mais premiados do país. Pensa em um Nobel?

Milton Hatoum – O “Cinzas do Norte” foi meu romance mais premiado. Olha, Elaíze, o Nobel, eu lamento, e todo leitor e escritor brasileiro lamenta, não ter sido dado para o Carlos Drummond de Andrade (1902-1987) ou para o Guimarães Rosa (1908-1967), um grande poeta e o maior escritor na língua portuguesa, na minha opinião. Mas não temos politica literária no Brasil. O momento [do Nobel] seria nos anos 60 e 70, que era ditadura. Não iam dar nem para um nem para outro. O Drummond, inclusive, recusou prêmios durante a ditadura. As traduções do Rosa eram ruins. Eu acho o Nobel, eu não penso nisso. Tem amigos que falam isso, mas é para me sacanear. O que mais quero é um leitor de qualidade. Gostaria que os jovens lessem esse romance. Os estudantes do ensino médio, da universidade. Até para entender o momento em que a gente vive.

 

Amazônia Real – O que sente quando retorna a Manaus?

Milton Hatoum – Eu acho que mudou tanto para quem já é um velho, um cara de 65 anos, e que viveu numa Manaus ainda digna. Isso não falo por nostalgia, falo por civilidade, por anseio de civilização. Manaus foi muito destruída. Hoje é uma cidade muito hostil. O governo não consegue construir parques e sombrear a cidade. Não consegue fazer calçada. Isso sem falar da infraestrutura da zona Leste. Mas, apesar de todas as iniquidades, da destruição, da pobreza, da violência, sempre me emociona. Isso só acontece quando volto para Manaus. Não acontece quando volto para Brasília, para Paris ou São Paulo. É claro, estou voltando para o lugar da minha infância, meus pais estão enterrados em Manaus, meus avós. Tenho familiares vivos. Tenho uma tia, minha irmã, tenho três sobrinhos, mais uma dezena de primos. Tenho dois filhos. Um de 14 anos, o João, e o Gabriel de 10 anos. Os dois conhecem Manaus. O melhor hoje para mim é o rio Negro. É disso que sinto saudades. É o grande rio da minha infância e da minha vida.

Milton Hatoum (Foto: Fernanda Preto)

 

O que é?

Noite de autógrafos de Milton Hatoum

Lançamento do livro  “A Noite da Espera”

Local: Banca do Largo, no Largo Sebastião, em Manaus

Horário: 18h30

Data: 04 de dezembro de 2017

 

 

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Decisões do governo Temer sobre Terras Indígenas afrontam Constituição, diz Santilli

Instituto Socioambiental - qua, 22/11/2017 - 14:56

Confira a entrevista publicada no Blog 'Mais democracia, mais sustentabilidade", do jornal O Estado de S.Paulo, em 22/11/2017

Direitos Indígenas

Fêmeas Memórias – Mãe Esperança  

Amazônia Real - qua, 22/11/2017 - 14:35

Afinal, de quantas formas um coração pode ser maltratado e ainda continuar batendo?

Stephanie Meyer – Escritora Americana

 

Mãe Esperança é natural da Comunidade Paurá, município de Urucurituba, distante a 339 quilômetros de viagem de barco pelo Rio Amazonas até Manaus (AM). Aos 61 anos, entre silêncios, resistências e auto disfarces, a Aposentada é mais uma anônima ignorada nas políticas de ‘escutas’ sociais. Única referência: “- mãe de marginais”. Sob tal jugo, atravessa ruas inóspitas da periferia onde mora em busca de saídas humanizantes. O rápido caminhar, olhar fugidio e tristonho servem-lhe de refúgio no enfrentamento das próprias algemas – fugas de si mesma. 

Na percepção da Jornalista Eliane Brum, “A escuta é ato de transgressão. Movimento radical. É desabitar-se de si para habitar o outro. Pela escuta não apenas ouvimos, vestimos”. Tamanha instigação, joga-me da rede espichada na varanda do Coio das Utopias, desabita-me para habitar a Outra.

Outubro trazia verão forte: céu sem nuvens, horizonte em brasa. O calor na Ilha Tupinambarana desafiava altas tecnologias de refrigeração ambiental. Havíamos combinado nosso encontro para as 3 da tarde, em sua residência, na periferia de Parintins (AM). Ali, apesar das agressões à natureza, fruto do desordenamento habitacional, a temperatura apresentava-se um tanto solidária ao exercício da escuta à Mana.   Nesse meio tempo, os meios de comunicação badalavam o “outubro rosa” provocando mulheres à prevenção do câncer de mama. Seduzida pelos apelos midiáticos e à necessidade tardia de um check-up a Entrevistada atrasara-se para o nosso encontro.  Desculpa-se e desabafa… Desculpa, mana, o atraso. Cheguei só agora porque vim lá do Hospital Jofre Cohen, mas não tinha atendimento; não tem máquina; tá tudo quebrado…

Considerando o conflitante histórico da Personagem, imaginava encontrá-la, no mínimo, deprimida. Surpreendente amorosidade no acolhimento! E bem antes de expressar meus propósitos, aponta-me o caminho para Cultivar a Alegria…

Mana, no Eclesiástico, capítulo 30, versículos 22-27, diz que é pra nós viver pra cima; pra nós de segurar seja o momento bom ou ruim… Assim… “Não entregues tua alma à tristeza, não atormentes a ti mesmo em teus pensamentos. A alegria do coração é a vida do homem, e um inesgotável tesouro de santidade. Alegria do homem torna mais longa a sua vida. Tem compaixão de tua alma, torna-te agradável a Deus, e sê firme; concentra teu coração na santidade e afasta a tristeza para longe de ti, pois a tristeza matou a muitos e não há nela utilidade alguma. A inveja e a ira abreviam os dias e a inquietação acarreta a velhice antes do tempo. Um coração bondoso e nobre banqueteia-se continuamente, pois seus banquetes são preparados com solicitude.”

Essa leitura é o alimento diário para esta minha vida.  Mãe nenhuma, por pior que seja, quer o mal pros filhos. O que meus filhos fazem de ruim não é do meu consentimento. Dei a eles o que pude sempre pensando no melhor. Mas as lições do mundo, deste mundo que está aí, parece que tudo o que ensinei e ensino não vale nada. Por tudo o que já sofri por causa deles, entrei em depressão profunda. Já não comia, não bebia… Tava quase morrendo. Mas, sou uma mulher de muita coragem, de muita força e fé em Deus.  E foi essa leitura do Eclesiástico que, naquele momento, caiu na minha mão… Parecia que essa leitura falava tudo pra mim, e foi ela que me alevantou e me ensinou a ser uma mulher forte, segura… É essa leitura que me sustenta abaixo de Deus.

 

Autorretrato

Apesar do volume de conflitos silenciados e de difícil remedeio (haja vista os abismos do atual Estado Democrático de Direito em relação a acessos humanizantes a marginalizados históricos, a vulnerabilizados sociais) nossa Mana desenha o autorretrato numa perspectiva desafiadora, tecida de amor, fé, alegria e esperança… Considera-se Mulher corajosa que não desiste de apostar no poder do amor materno como possibilidade transformadora…   

Mãe é a flor do amor. É ser fé, esperança, alegria, paz para aqueles que gerou… Maria, a mãe de Jesus, é exemplo de tudo isso… Com Ela aprendo não desistir de amar, mesmo quando as punhaladas na alma ferem mais que um tiro… Mãe Esperança combina comigo, porque é esta a Mulher que eu vivo nos momentos difíceis… A esperança é irmã da fé. Essas lições meu pai me ensinou desde pequenininha. Então, é nisso que a minha vida é baseada. Eu creio que ainda serei uma mãe vitoriosa.

 

Fêmea domesticação

Nos vários diálogos trazidos em capítulos dessa coletânea, a trajetória humana de categorias em desvantagem socioeconômicas, pouco ou nada, difere. Mãe Esperança é outra Mana em cuja existencialidade traz os calos da domesticação desde a mais tenra infância… 

Minha infância não foi mar de rosas. Fui a primeira filha entre seis irmãos e só eu de mulher. Minha mãe trabalhava muito e eu ficava só. Assim eu fui crescendo e já ajudando minha mãe nos trabalhos da casa… Acho que tinha uns 5 anos de idade. A mamãe saía e me deixava cuidando dos meus irmãos, da casa e de tudo que era preciso. Com 9 anos em diante eu já assumia todos os trabalhos da casa. Não tive quase oportunidade de estudar. Eu parecia uma mãe de família e, se eu não desse conta, quando minha mãe chegava era peia. A gente morava num beiradão do Amazonas. Além dos trabalhos de casa, ainda enchia água. Foi uma infância muito dura. Por todas essas coisas só comecei a estudar com 15 anos. Nossa comunidade ficava muito longe da escola – a Comunidade do Paurá.  Lembro bem da minha primeira professora, dona Helena. Não sei se ainda é viva. Fiz até a quarta série porque lá no interior a gente estudava só até a quarta. Nisso, minha madrinha pediu pro meu pai mandar me educar. Eu queria muito… Tinha muita vontade de estudar, passear, conhecer o mundo, as cidades, lugares bonitos… Não pensava em casar nem ter família.  Mas, minha mãe e meu pai não me davam folga: era só ir pra aula, chegar em casa e fazer os trabalhos domésticos. Quando minha madrinha pediu do meu pai pra eu ir morar com ela, ele não deixou. Minha madrinha não tinha filhos. Era a oportunidade de eu realizar meus sonhos…Fiquei muito sentida pelo não do meu pai. Aí apareceu a minha irmã mais criança. Eu fiquei tão alegre! Minha irmã cresceu e, quando fez 9 anos, meu pai botou ela pra estudar aqui em Parintins. Nessa época, eu já tinha 19 anos. Parece que não tinha mais saída pra mim. Comecei namorar. Queria sair daquela vida… Foi que apareceu um rapaz muito trabalhador; a gente se apaixonou um pelo outro e ele me pediu em casamento. Neste noivado, ele pegou uma doença e morreu. Eu sofri muito… Foi meu primeiro namorado… De lá, o tempo foi passando, aí apareceu esse que é o pai dos meus filhos. Eu não gostava dele não. Eu já ia fazer 20 anos. Pra bem dizer, meu pai me obrigou casar, porque naquele tempo a gente não tinha permissão de namorar como agora, e se o pai soubesse que a gente tava se encontrando com alguém, logo fazia casar pra não desmoralizar a família. O papai se agradou dele, mesmo sabendo que não era do meu agrado. Mesmo assim, eu pensava que minha vida ia melhorar com o casamento… Foi aonde eu fui sofrer mais ainda.

 

Leis do patriarcado

No sistema patriarcal, a destinação da grande maioria de mulheres principalmente empobrecidas e analfabetas é o casamento burguês a cujos estudos marxistas foi a “primeira opressão de classe do sexo masculino sobre o feminino”. Em condições de pobreza material e analfabetismo, mulheres assemelham-se a um fardo insuportável para as famílias. Tal fardo, portanto, exige destinatários afins, isto é, precisa ser passado em frente ou negociado com interessados em escravas do lar…

Meu marido não me dava valor. Já, depois da cerimônia do casamento, pegamos o barco. Ele deitou na rede já com outra mulher. Eu era tão conformada que só fazia chorar. Uma senhora que estava no mesmo barco, me chamou atenção… Eu só olhava e chorava. Foi nessa vida que veio a primeira filha. Ao todo são 10 filhos de tempo e um aborto. Fiquei 25 anos com ele, mas sempre sofrendo. Aí apareceu um curso na Escola Agrícola de Urucará. Eu era líder da comunidade. Eu já fui muito gente boa na comunidade: presidente do apostolado, agente de saúde, líder da pastoral e responsável do senáculo… Como eu tinha um bom desenvolvimento, meu irmão, que era presidente, me colocou pra fazer curso, mas o pai dos meus filhos não deixou. Disse que o curso era de três meses e ele não ia ficar sem mulher todo esse tempo. Perdi a oportunidade. E eu sempre naquela peleja com ele em casa. Daí, vim pra Agrovila do Mocambo. Lá, eu conhecia muito agente da saúde e a responsável do posto me convidou pra fazer o curso de enfermagem. Fiquei alegre e disse que aceitava. Era meu sonho.  Falei pra ele e ele foi contra, mas, dessa vez, eu desobedeci: deixasse ou não eu ia fazer o curso, porque ele já tinha empatado muito a minha vida, meu estudo, meu trabalho… Dessa vez ele não ia me impedir… Arrumei minha trouxinha, peguei meus filhos mais crianças e fui embora pro Mocambo. Fiz 5 cursos, passei sempre em primeiro lugar. Consegui o emprego, comecei a trabalhar e fiquei lá 6 anos. Nisso, pedi pra ele comprar um terreno pra nós. Ele não quis. Como eu tinha uma gadinho que meu pai me deu, vendi um mamote, comprei o terreno e vim pro Mocambo. Quando eu já tava bem, trabalhando, lá ele veio pra morar comigo. Os 10 filhos que eu tive, posso dizer que fui obrigada fazer. Eu mesma só pretendia ter um casal, mas meu marido não me perdoava se eu não queria fazer sexo. Eu não sentia prazer… De noite, já estava morta de cansada, aí, ele queria e, se eu não fizesse, me beliscava toda. Ficava toda marcada. Tinha que aceitar, aí eu pegava os filhos…  

 

Desafios por Libertação

Foto ilustrativa de Mãe Esperança (Floriano Lins)

 

Em seus estudos sobre A origem da família, da propriedade e do estado, Friedrich Engels declarou: “A emancipação das mulheres e sua igualdade com os homens são impossíveis e assim devem permanecer, enquanto as mulheres forem excluídas do trabalho social produtivo, e restringidas ao trabalho doméstico”. Embora desprovida desse entendimento, desejos de libertação e autonomia instigavam Mãe Esperança romper com a escravidão doméstica e com a exclusão ao trabalho social produtivo…

Quando eu disse, agora eu quero e vou, me senti uma pessoa de força, de coragem; uma pessoa de domínio, porque eu já estava cansada daquela vida de humilhação e violência. Cheguei no limite da tolerância. Dentro de mim explodia um desejo de ser eu mesma, de prosperar por mim mesma, de ser responsável por mim mesma… Já tinha acho uns 38 anos e com 10 filhos… Não foi fácil essa decisão: ele ficou revoltado, disse palavras muito ofensivas pra mim, me chamou daquelas coisas e disse que não ia comigo e não ia me ajudar… Enfrentei: “- tudo bem, eu sei trabalhar e vou comprar minha casa e viver com meus filhos”. Daí, trouxe tudo comigo: primeiro, os mais crianças, depois os mais velhos… Coloquei na escola, porque nunca deixei meus filhos sem escola: era escola religiosa, era grupo de jovens… Tudo eu botava eles pra serem uns filhos bons, crescerem e terem um bom caminho, um bom emprego… Quando ele viu que eu não voltava, lá veio pra morar comigo… Mais sofrimento. Se à noite me chamavam para aplicar uma injeção, ele ficava revoltado e me ameaçava. Dizia que eu só vivia saindo, que eu tinha outros… Inventava aquelas coisas e eu suportava. Nesse meio tempo, aconteceu uma tragédia com a irmã dele: foi morta por quatro pessoas na comunidade. Era uma deficiente. Uma santa aquela menina, mas teve um destino tão triste… Um sobrinho meu tava envolvido. Nessa ocasião, nosso casamento se acabou. Ele ficou tão revoltado comigo… Todo dia ele sentava debaixo de um jambeiro, amolava uma faca e me ameaçava…Já não me ajudava em nada… Não fazia caso dos filhos… Ficava o tempo todo com aquela faca na mão pensando não sei o quê. Eu ia pro trabalho, chegava e ele lá. Aí disse que não queria mais viver comigo. Dei graças a Deus… Tinha muito medo dele… Em 1998 eu vim pra Parintins. No outro ano ele veio em casa, sentou na cabeceira da mesa, chamou o meu filho mais velho e falou pra ele que tinha feito um roçado grande e que tomasse conta do roçado, da canoa e do resto do gado. Disse que ia embora. Eu quis saber. Ele respondeu que se ficasse ia me matar e depois se matava. Confessou que, na noite passada bateu três vezes a espingarda encima de mim, mas o cartucho não detonou. Parece que saí de mim… “- Tu ia fazer isso? Tu tinha coragem de fazer isso? Como ia ficar nossos filhos?” Ele respondeu que ia fazer sim… A partir daquele dia eu não quis mais viver com ele, mas ainda ficou em casa seis meses. A gente não se falava… Quando vi que ele não saía de casa, pedi minha transferência e vim morar em Parintins com meus filhos numa casa alugada. Comecei trabalhar no Jardim Aurora. Botei todos eles pra estudar. O meu filho mais velho não estudava mais: tirou a oitava série e já trabalhava numa movelaria… Assim a gente vivia.

 

Pariu? Embale!

O preço da libertação de mulheres em condição semelhante à Mãe Esperança é dimensionado conforme o grau de possibilidades socioeconômicas… Atrevimento, dor e suor se misturam em meio a esforço físico e emocional. A responsabilidade e o cuidado por cada filho/a recai sobre quem pariu…

Meus filhos foram crescendo… A minha filha mais velha já era casada; a outra mais criança também casou e já tinha indo pra Manaus. Só ficaram comigo os mais crianças. Eu trabalhava muito: de manhã, como doméstica; de tarde, na escola e quando eu chegava de lá, vendia churrasco nos box da feira. E meus pequenos ficavam em casa sozinhos se virando. Trabalhei muito pra sobreviver; já não tinha mais quase tempos pros meus filhos; não queria que faltasse nada pra eles e jamais seguissem o mal caminho.

Foi o tempo em que quebrei o braço num acidente, quando voltava do trabalho. Me encaminharam pra Manaus. Deixei meus pequenos com a filha que vivia comigo. Os maiores trabalhavam numa padaria e estudavam na Escola São José Operário. Antes de viajar recomendei bem e deixei a minha filha tomando conta deles. Passei três meses internada. Quando voltei, os meus filhos não estudavam mais; só sabia das notícias que não saíam do Arealzinho. O que trabalhava se viciou em bebida, em drogas. A minha filha me contou tudo, mas eu não podia ir atrás… O braço todo enfaixado… E foi essa maldita droga que trouxe toda a desgraça pra vida deles e pra minha. Nesse desespero, fui no Hospital Padre Colombo e pedi que me livrasse daquele gesso. Naquela mesma tarde, me contaram que os meus meninos estavam cheirando porcaria. Fui atrás. Trouxe eles pra casa, aconselhei, mas já estavam viciados… Saíam e chegavam… Eu aconselhava, mas parecia nada; já estavam dominados pelo vício; não estudavam mais. Fui chamada nas escolas… Tinham muita falta. Pararam de estudar… Uma noite, eu tinha chegado morta de cansada sentindo uma grande agonia, um aperto no coração… Sentia que alguma coisa ruim estava acontecendo… A polícia passava pra lá, pra li e perguntei da minha filha: “- O que essas polícia tão fazendo?…” Ela disse que tavam procurando galeroso… Não imaginava que era meu filho. De lá, um rapaz que é o namorado do mais criança bebeu e gritou aqui na porta de casa dizendo que o outro meu filho tinha assaltado um comércio. Levantei assustada: “- O que aconteceu?… Falem a verdade!”.  Eu saí pra fora… Era verdade. Naquela hora parecia que o chão sumiu. Entrei em desespero sem saber o que fazer… Parecia assim que meu coração tinha saído do lugar… O outro caso foi o da caixa d’água: eu tava no anterior e, à boca da noite, eu gostava de escutar o rádio… Nisso, deram a notícia do caso de uma moça encontrada morta próximo à caixa d’água, assassinada por quatro marginal… Aquilo me tocou… Parecia que era pra mim. Aquelas palavras me doeu tanto… “- Meu Deus, o que está acontecendo, meu Pai do Céu! Será que meus filhos estão envolvidos?” Parecia que o locutor falava pra mim… Chorei muito… Passamos a noite agoniadas… Não conhecíamos a moça. Disque ela namorava um dos rapazes que tava com meu filho no crime. No outro dia eu levantei cedo muito angustiada e liguei o rádio. Aí deu que já tinham encontrado os culpados. Eu querendo saber. Só na hora do jornal, falaram o nome do meu filho… (soluça…) Puxa a vida!!! Só faltei cair do assoalho pra baixo…“- Meu Deus! Minha filha, teu irmão está envolvido”. Desmaiei e não sei mais. Passei muito mal. Esse foi o primeiro caso de crime grave. Antes disso, eles nunca tinham feito isso. Depois, vieram os outros casos. Ninguém imagina o quanto sofri e sofro até hoje. É dor que ninguém vê e não tem remédio… Entrei em depressão. Aguento e vivo porque tenho esse Deus muito forte comigo que me dá força pra lutar e vencer com fé e esperança. Passada uma semana, voltei pra cá. Os comentários já tavam fracassando um pouquinho. Tinha vergonha de sair, de me aparecer pras pessoas… Queria a modo me trancar, sumir… Aí  voltei pro Fórum de Justiça. Lá, eles me deram muita força. A doutora Themis me dizia pra não ficar deprimida; pra mim não abaixar a cabeça porque todos sabiam que tudo o que aconteceu não era por mim; não foi isso que eu ensinei; não foi isso que eu quis pro meus meninos. O Juiz e a Promotora foram também pessoas maravilhosas; me botaram pra cima e me ensinaram ser uma pessoa segura, de coragem abaixo de Deus. Meu único filho que não usa as drogas é esse que é gay, esse não me dá trabalho… O mais criança tá em Manaus já foi preso, mas nunca passou por situação difícil. Ele trabalha, fuma, mas, graças a Deus nunca deu problema. Já foi preso como refém, quando o irmão fugiu… Esse meu filho do crime da caixa d’água tem feito nós sofrer muito… Perdeu completamente o amor de família. Me perguntam, às vezes, como o meu marido é com os meninos…Ele não foi muito legal. O pai deles foi um homem sem tempo pra nós… Trabalhavam muito e quando chegava, era só ralho e briga… Num dava carinho… Se o caçula chegava pro lado dele, era só, “-sai, sai, não quero conversa!”. Ele maltratou muito este que tá preso pelo roubo do comércio… Tentou até arpoar o menino… Quando eles foram presos, o pai ignorou por completo e ainda me colocou a culpa. Pra dizer a verdade, ele nunca me ajudou com esses meninos… Nunca trazia nada pra eles, nem um refrigerante, nem um agrado… Era assim… Hoje, ele mora em Roraima com a minha filha. Pouco sei dele.

 

Acalanto para algemas

A autora Fátima Guedes durante entrevista em Parintins (Foto: Floriano Lins)

Sob o jugo de algemas silenciadas, entre excluir e acolher, Mãe Esperança insiste oferecer escuta aos seus condenados históricos… Ignora os açoites emocionais, ultrapassa os limites de sua realidade algoz para transformar em práxis inominável o amor maternal…     

Nunca abandonei eles. Converso muito… As irmãs são loucas pelos irmãos. Eles pedem perdão, dizem que ama nós e que vão se endireitar… Passado esse momento, fazem tudo errado de novo. Dizem que lá fora, quando estão na droga são muito violentos… Aqui dentro de casa, não; são boas pessoas… Taí os vizinhos de testemunha… Quando saem pra usar, chegam rindo, tudo naquele jeito… Eu olho… “- Poxa, de novo na maldição!…” Mando tomar banho, se quietar… Quando acordam, de novo… Mas, nunca fizeram maldade dentro de casa… Isso não. Pessoas me perguntam se são violentos, se já mudaram… Não gosto dessas perguntas. É mais sofrimento… Ás vezes, invento que já mudaram… A fé e a esperança são as últimas que morrem, e eu ainda tenho muita fé e esperança que um dia cantarei vitória com meus filhos. Sou católica e canto louvores que falam de esperança, de fé, de coragem….

 

Se outras precisarem…

 “Quantas não são as mães que carregam silenciosamente a cruz de verem seus filhos se perderem nas drogas! Crucificadas, acompanham a cruz dos filhos com amor incondicional, compreensão, dilacerações sem conta, como Maria ao pé da cruz”… A solidariedade nas palavras de Leonardo Boff, em sua obra, A nossa cruz de cada dia, veste os silêncios dolorosos de Mãe Esperança…

Nenhuma de nós está escapa da dor. Digo isso pra todas as mães do mundo inteiro, mães sofridas, desesperadas… Às mães que já entregaram os pontos; que acham que a vida já terminou; que não têm mais jeito pros filhos… Nunca desistam da fé, da esperança, dos seus filhos, principalmente daqueles que têm mais defeitos. Lutem com fé, coragem e com esperança em Deus. Esse Deus que vive em nós, que tudo pode, é quem traz o consolo e a certeza de dias melhores. Querer e vencer só depende de nós. Insisto: não abandonem seus filhos mesmo nos piores momentos… Se nós abandonar nossos filhos que erram ou se desviam, quem vai acolher? Ninguém tem o direito de nos julgar; o julgamento deste mundo é falso… Hoje entendo: todo sofrimento tem uma razão… E o único julgamento correto é o que vem de Deus, porque é ele quem conhece nossa alma, nosso coração, nossos pensamentos…Só não sofre quem não tem amor, o sofrimento de Jesus e Maria é o maior exemplo de coragem, de fé e esperança. Só confio no julgamento que vem de Deus. Ele é o nosso maior apoio, nosso maior advogado, é o nosso maior juiz… Com esse pensamento, consigo ser feliz, apesar de todo o sofrimento. O que me faz falar tudo isso é essa grande fé e esperança que eu tenho; essa confiança Naquele que tudo pode… Amo também Nossa Senhora, uma Mulher que nem eu. Vocês mães sofridas, nunca se desesperem, nunca abaixem a cabeça pro mundo…

 

Segue a Procissão

Mãe Esperança cumpre o histórico já predestinado nas arbitrariedades, contradições e desigualdades do Estado patriarcal, dito Democrático de Direito. A reprodução das mazelas aponta para um adiante sem fronteiras… Há outras tantas arrastando a procissão… Silenciosas em suas dores, silenciadas em seus direitos fundamentais resistem entre múltiplos disfarces sustentando-se em princípios e valores espirituais. São estratégias audaciosas, irreverentes no enfrentamento à exclusão – tentativas tantas vezes frustradas pra se fazerem existir… Ao menos existir… Segue a procissão sem perspectivas claras e humanizantes… É o que está.

 

 

Notas

Coio das Utopias – Denominação de nossa residência. Agrofloresta urbana de Parintins.

Themis – Nome fictício da ex-Diretora do Juizado Especial

Mocambo – Agrovila do Munícipio de Parintins/AM

Arealzinho – Área suburbana da Ilha Tupinambarana

 

 

Leia os outros artigos da série: 

Fêmeas Memórias – Algemas silenciadas

Fêmeas Memórias – Álquia Esquenta o Debate 

Fêmeas Memórias – Utopias de uma Borboleta

Fêmeas Memórias – Esperança Aprisionada

Fêmeas Memórias – Mensageira de Silêncios

Fêmeas Memórias – Sob o voo da Águia

Fêmeas Memórias – Estrela Cadente  

 

 

 

 

Os artigos de autoria de Fátima Guedes fazem parte do Projeto – Fêmeas Memórias: Trajetórias de Mulheres Violentadas sexualmente, presas da Justiça e ex-presidiárias no município de Parintins, no Amazonas.

 

 

Fátima Guedes é educadora popular e pesquisadora de conhecimentos tradicionais da Amazônia. Graduada em Letras pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), tem especialização em Estudos Latino-Americanos pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) em parceria com a Escola Nacional Florestan Fernandes (ENFF) em Guararema (SP). É também fundadora da Associação de Mulheres de Parintins, da Articulação Parintins Cidadã e Militante da Marcha Mundial das Mulheres e da TEIA – Teia de Educação Ambiental e Interação em Agrofloresta.  

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Governo insiste em avançar com concessão da Ferrogrão sem consultar indígenas

Instituto Socioambiental - qua, 22/11/2017 - 13:38

A Agência Nacional de Transportes Terrestres ignorou recomendação do Ministério Público Federal que pedia o cancelamento das audiências públicas de concessão da ferrovia

Ferrogrão

Belo Monte – Atores e argumentos: 13 – “Necessidade” e “legalidade” questionadas

Amazônia Real - ter, 21/11/2017 - 17:10

A “necessidade” de Belo Monte é questionável, uma vez que o Brasil tem muitas outras opções de energia. As projeções da demanda para eletricidade, que são subjacentes aos planos de construção de barragens, são grosseiramente exageradas [1]. Além disso, nem toda a “demanda” é realmente “necessária”. Sendo que apenas 28,7% da eletricidade do Brasil é para uso doméstico ([2], p. 44), o argumento fácil de que uma decisão de não construir Belo Monte significaria maiores contas da eletricidade nas cidades brasileiras distorce a questão.

A maior parte da energia de Belo Monte não se destina para uso doméstico, e muito menos para estender a eletricidade para áreas remotas sem acesso à energia. Quantidades substanciais de eletricidade vão para indústrias com pouco benefício para a população brasileira. Um ponto de partida lógico na reforma política energética está na eliminação da exportação de energia elétrica sob a forma de commodities de eletrointensivos, como o alumínio, que gera pouco emprego no País [3].

O Brasil tem grandes oportunidades para reduzir o consumo de energia por melhorias na eficiência energética e nos sistemas de transmissão e distribuição, e o País tem um enorme potencial para geração eólica e solar, que recebem apenas prioridade simbólica quando comparado com a energia hidrelétrica [4-6]. Mas recentemente, o Presidente do Brasil vetou todo o financiamento para “energia renovável não hidráulica” no Plano Plurianual 2016-2019 [7].

Questionamentos sobre a legalidade do projeto são pouco compreendidos. O que aparece no noticiário da televisão e a maioria dos relatos de jornal é limitado a uma simples constatação de que uma liminar que travava o projeto de barragem foi “derrubada por um determinado juiz. A percepção, portanto, é que não deve ter havido nenhum mérito para a liminar travar o projeto. Não mencionado é o fato de que a liminar pode ser baseada em dezenas de páginas detalhando violação de várias leis, enquanto a decisão de derrubar a liminar consiste em algumas poucas linhas, invocando uma “suspensão de segurança” sem tocar sobre o mérito do caso.

A história de Belo Monte tem amplamente demonstrado que “a lei não é uma garantia suficiente de fazer respeitar os direitos” ([8], p. 277). Há pouco impulso para mudar as leis de suspensão de segurança, porque apenas uma pequena fração da população brasileira sabe da existência dessas leis, que permitem que as decisões judiciais sejam revertidas se implicam “dano grave” à economia pública (ver: [9]). [11]

 

 

Notas

[1] Prado, A.P., Athayde, S., Mossa J, Bohlman, S., Leite, F. & Oliver-Smith, A. 2016. How much is enough? An integrated examination of energy security, economic growth and climate change related to hydropower expansion in Brazil.  Renewable and Sustainable Energy Reviews 53: 1132-1136. doi: 10.1016/j.rser.2015.09.050

[2] Brasil, MME/EPE (Ministério de Minas e Energia, Empresa de Pesquisa Energética). 2015. Plano Decenal de Expansão de Energia 2024. MME/EPE, Brasília, DF. 467 pp. http://www.epe.gov.br/PDEE/Relatório%20Final%20do%20PDE%202024.pdf

[3] Fearnside, P.M. 2016. Environmental and social impacts of hydroelectric dams in Brazilian Amazonia: Implications for the aluminum industry. World Development 77: 48-65. doi: 10.1016/j.worlddev.2015.08.015

[4] Baitelo, R., Yamaoka, M., Nitta, R. & Batista, R. 2013. [R]evolução Energética: A Caminho do Desenvolvimento. Greenpeace Brasil, São Paulo, SP. 79 pp. http://www.greenpeace.org/brasil/pt/Documentos/Revolucao-Energetica-/

[5] Bermann, C. 2002. O Brasil não precisa de Belo Monte. Amigos da Terra-Amazônia Brasileira, São Paulo, SP. 4 pp. Disponível em: http://philip.inpa.gov.br/publ_livres/Dossie/BM/Outros/Celio_Bermann-Belo_Monte.pdf

[6] Moreira, P.F. (Ed.) 2012. Setor Elétrico Brasileiro e a Sustentabilidade no Século 21: Oportunidades e Desafios. 2a ed. Rios Internacionais, Brasília, DF. 100 pp. Disponível em: http://www.internationalrivers.org/node/7525

[7] ISA (Instituto Socioambiental). 2016. Dilma veta energias renováveis não hidráulicas no Plano Plurianual. Notícias Socioambientais, 21 de janeiro de 2016; atualizado 27 de janeiro de 2016. http://www.socioambiental.org/pt-br/noticias-socioambientais/dilma-veta-energias-renovaveis-nao-hidraulicas-no-plano-plurianual

[8] Graeff, B. 2012. Should we adopt a specific regulation to protect people that are displaced by hydroelectric projects? Reflections based on Brazilian law and the ‘Belo Monte’ case. Florida A&M University Law Review 7(2): 261–285. http://commons.law.famu.edu/cgi/viewcontent.cgi?article=1064&context=famulawreview

[9] Fearnside, P.M. 2015. Amazon dams and waterways: Brazil’s Tapajós Basin plans. Ambio 44(5): 426-439. Doi: 10.1007/s13280-015-0642-z

[10] Fearnside, P.M. 2017. Belo Monte: Actors and arguments in the struggle over Brazil’s most controversial Amazonian dam. Die Erde 148(1): 230-243. Doi: 10.12854/erde-147-18.

[11] As pesquisas do autor são finaciadas exclusivamente por fontes acadêmicas: Conselho Nacional do Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq: proc. 305880/2007-1; 5-575853/2008 304020/2010-9; 573810/2008-7), Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Amazonas (FAPEAM: proc. 708565) e Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA: PRJ15.125). Agradeço a Paulo Maurício Lima de Alencastro Graça pelos comentários. Esta é uma tradução atualizada de [10].

 

A foto que ilustra este artigo é  da hidrelétrica de Belo Monte em construção em 2015

(Foto: Naiara Pontes/SG)

 

Leia os artigos da série:

Belo Monte – Atores e argumentos: 1 – Resumo da série

Belo Monte – Atores e argumentos: 2 – A pergunta do por quê 

Belo Monte – Atores e argumentos: 3 – As empresas e as doações

Belo Monte – Atores e argumentos: 4 – A corrupção confessada

Belo Monte – Atores e argumentos: 5 – A ação da Dilma

Belo Monte – Atores e argumentos: 6 – A máquina judicial

Belo Monte – Atores e argumentos: 7 – A Igreja e as ONGs

Belo Monte – Atores e argumentos: 8 – Grupos indígenas

Belo Monte – Atores e argumentos: 9 – O início do movimento contra

Belo Monte – Atores e argumentos: 10 – A divisão do movimento

Belo Monte – Atores e argumentos: 11 – Celebridades, MPF, jornalistas e acadêmicos

Belo Monte – Atores e argumentos: 12 – Argumentos deixados de lado

 

 

 

 

 

Philip M. Fearnside é doutor pelo Departamento de Ecologia e Biologia Evolucionária da Universidade de Michigan (EUA) e pesquisador titular do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), em Manaus (AM), onde vive desde 1978. É membro da Academia Brasileira de Ciências e também coordena o INCT (Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia) dos Serviços Ambientais da Amazônia. Recebeu o Prêmio Nobel da Paz pelo Painel Intergovernamental para Mudanças Climáticas (IPCC), em 2007. Tem mais de 500 publicações científicas e mais de 200 textos de divulgação de sua autoria que estão disponíveis neste link.

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MPF lança projeto de combate ao desmatamento ilegal na Amazônia

Instituto Socioambiental - ter, 21/11/2017 - 15:30

Imagens de satélite serão utilizadas para identificar desmatamentos ilegais e promover a punição e a recuperação das áreas destruídas

MPFDesmatamentoAmazônia

Mercado de Pinheiros terá show, degustação e cestas de presentes da floresta

Instituto Socioambiental - ter, 21/11/2017 - 08:59

Evento no Box Amazônia e Mata Atlântica neste sábado (25/11) é oportunidade para presentear diferente neste fim de ano, com produtos que valorizam a floresta e povos que nela vivem

Territórios da Diversidade

Resex Rio Unini: pai do garoto que morreu com suspeita de raiva humana pediu ajuda da Saúde

Amazônia Real - seg, 20/11/2017 - 00:51

A irmã do adolescente continua internada em coma na UTI da Fundação de Medicina Tropical em Manaus. (A fotografia é da Comunidade Patauá cedida por Débora Menezes à Amazônia Real)

  

Levi Castro da Silva, 47 anos, é uma das grandes lideranças da Reserva Extrativista do Rio Unini, que fica em Barcelos, município ao norte do Amazonas. Neste domingo (19), ele enfrentou a dor de enterrar um dos quatro filhos, Lucas, de 17 anos, que morreu vítima de encefalite viral, ou seja, infecção no cérebro. A Fundação de Medicina Tropical (FMT) ainda investiga a causa da doença, mas existe a suspeita de que se trata de um caso de raiva humana, devido às mordidas que havia sofrido. O sepultamento do garoto aconteceu em Novo Airão, a 180 quilômetros da capital.

Mas a aflição do pai continua. Sua filha Miriã, de dez anos, está internada em estado grave na Unidade de Tratamento Intensivo FTM, hospital referência no tratamento e pesquisa de doenças infectocontagiosas na Amazônia. Ela tem os mesmos sintomas da doença que provocou a morte do irmão na quinta-feira (16), no Pronto Socorro 28 de Agosto, em Manaus.

Miriã, conta Levi, também sofreu ataques de morcegos na Comunidade Tapiira, da Resex Rio Unini, um afluente do Rio Negro, assim como o resto da família.

“Do menino que morreu fica a saudade, o vazio, e para minha filha, a esperança por que ela ainda está viva”, declarou Levi à reportagem da Amazônia Real no sábado (18). Ele estava na porta do hospital da FTM. “Estou confiante que minha filha vai sair dessa situação e que meu filho está nos braços de Deus. É o que me consola”, disse.

Levi disse que pediu assistência das autoridades de Saúde para o controle dos morcegos dentro da Comunidade de Tapiira. O lugar fica distante a 36 horas de viagem de barco da cidade de Barcelos, onde tem um hospital.

“Falei para o pessoal da Saúde fazer algo, os morcegos são transmissores de doenças. Não tem um lugar mais seguro para a gente dormir. Nada foi feito”, lamenta Levi. “É muito difícil [a vacinação], é muito complicado. Quando acontece essas coisas [a doença], aí todo mundo se mobiliza. Às vezes você pode evitar, com uma simples visita, com uma simples prevenção”, completou. 

Após a morte do filho Lucas, Levi e a mulher Débora receberam a primeira dose da vacina e o soro antirrábico, na Fundação de Medicina Tropical. A medicação é preventiva, protocolo adotado quando há suspeita de contato com o vírus da raiva.

Levi conta que o filho Lucas sentiu os primeiros sintomas no dia 9 de novembro. “Ele começou a sentir dor na perna direita, que foi subindo pela batata da perna e depois até o joelho”, recorda. Levado ao hospital em Barcelos, “o rapaz continuou a piorar”, disse o pai.

Uma semana depois, na quarta-feira (15), Lucas foi transferido ao Pronto Socorro 28 de Agosto, em Manaus. Na quinta-feira, segundo Levi Castro da Silva, o adolescente passou o dia no corredor, enquanto médicos não concluíam o diagnóstico. “Morreu às 20h30”, contou.

Ao mesmo tempo em que se desenrolava o drama do adolescente, Levi e sua mulher Débora acompanhavam o sofrimento da filha mais nova. A menina começou a sentir os mesmos sintomas de Lucas. Em Barcelos, após apresentar dores, foi submetida a uma cirurgia de emergência para retirada de apêndice. O quadro continuou a se agravar. Na sexta-feira (17), foi transferida de avião para Manaus.

Em nota divulgada neste domingo (19) pela Fundação de Vigilância Sanitária (FVS), ligada a Secretaria de Estado da Saúde (Susam), o médico infectologista Antonio Magela Tavares, chefe do Departamento Clínico da FMT, descreveu o estado de saúde  de Miriã: “o estado da menina é grave. Ela está em coma, mas estável, ou seja, não houve evolução dos sintomas”, disse o médico.

  “Fui mordido 18 vezes”

Um terceiro morador da Comunidade Tapiira, Claudemir Nunes de Souza, de 44 anos, também está internado no hospital da FTM. Em entrevista à Amazônia Real, ele disse que sentiu dores e dormência na perna após uma injeção, sintomas que poderiam indicar uma infecção no cérebro provocada por vírus. Na Fundação de Medicina Tropical, tomou a primeira dose da vacina e o soro antirrábicos. Felizmente, o estado de saúde de Claudemir melhorou durante o domingo. No início da noite, ele já havia saído do isolamento, sem apresentar sinais de encefalite, conforme informação do médico Antônio Magela.

Claudemir conta que já foi mordido por morcegos 18 vezes e mostra as cicatrizes espalhadas pelos dedos do pé esquerdo e calcanhar. Algumas feridas ficaram bastante inflamadas, segundo ele. “Eu lavava e passava a pomada, sarava e ficava por isso mesmo”, conta Claudemir que estava preocupado com a possibilidade de estar com uma doença grave.

 

Sob investigação

Conforme a nota da FVS, ainda é cedo para confirmar as causas da infecção apresentada pelos pacientes. “Uma das hipóteses é para a raiva humana, com base na evolução dos sintomas e o histórico dos pacientes para mordida de morcego, mas a investigação trabalha com outras hipóteses de infecção por arbovírus (vírus transmitidos por insetos) comuns em área de floresta”, informou o infectologista Antonio Magela Tavares, por meio da nota.

Magela afirma que a Floresta Amazônica é a maior reserva de arbovírus do mundo, com cerca de 200 espécies, sendo que a metade pode causar doenças no ser humano.

Amostras de sangue e saliva coletadas de Lucas, Miriã e Claudemir serão enviadas ao Instituto Evandro Chagas, em Belém, no Pará, laboratório credenciado pelo Ministério da Saúde. Posteriormente, informa a FVS, será feito diagnóstico molecular no Instituto Pasteur, em São Paulo, com previsão de resultados em 20 dias.

“A confirmação somente será possível quando tivermos em mãos o resultado dos exames de laboratório, que são muito específicos, complexos e demandam tempo para conclusão. Mas não esperamos o resultado para tratar o paciente”, esclareceu Magela.

 

Ataques denunciados

Rio Unini, afluente do Rio Negro, no  Amazonas (Foto cedida por Débora Menezes à Amazônia Real)

A Resex Unini foi criada pelo governo federal para atender à reivindicação das comunidades que estavam ameaçadas de serem retiradas do Parque Nacional do Jaú, em 2006. O parque, criado em 1980, é uma unidade de preservação que não previa a ocupação humana. Nas dez comunidades moram 280 famílias. Com 850 mil hectares, a gestão da reserva é de responsabilidade do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), do Ministério do Meio Ambiente.

Como publicado pela agência Amazônia Real, 88 moradores da Comunidade Tapiira foram atacados este ano por morcegos, algumas por mais de 20 vezes, conforme os registros da Associação dos Moradores do Rio Unini (Amoru).

O presidente da associação, José Dionísio da Silva, disse que em dezembro de 2016 pediu providências à Fundação de Vigilância em Saúde (FVS), ligada à Secretaria de Estado de Saúde do Amazonas (Susam), para combater a grande quantidade de morcegos nas dez comunidades da reserva. “A FVS enviou equipes para três comunidades”, conta Dionísio. “Não tive notícia de irem a outros lugares”.

Em setembro de 2016, conforme nota da FVS, uma equipe de controle de zoonoses da instituição realizou atividades na calha do rio Unini, incluindo a Comunidade de Tapiira. “Na ocasião, foram coletados morcegos, sem positividade para o vírus da raiva e realizado tratamentos por meio de pasta vampiricida para o controle da população de quirópteros hematófagos (Desmodus rotundus), além de ações de orientação aos moradores e medidas educativas.”

Outra medida, segundo a FVS, foi a vacinação de 100% de cães e gatos encontrados na comunidade Tapiira.

 

Relatório recomentou vacinação

Resex Rio Unini, em Barcelos, no Amazonas (Foto cedida por Steve McCool/Universidade de Montana à Amazônia Real)

As dez comunidades da Resex Ununi são: Lago das Pedras, Terra Nova, Democracia, Patauá, Tapiira, Manapana, Lago das Pombas, Floresta II, Vista Alegre e Vila Nunes. Em setembro de 2016 uma equipe da Gerência de Zoonoses da Fundação de Vigilância em Saúde (FVS) esteve na região. 

Conforme um documento do qual a agência Amazônia Real teve acesso, o Relatório de Viagem de Campo, de 17 de outubro do ano passado, diz que agentes de Endemias estiveram nas comunidades: Lago das Pedras, Tapiira, Vista Alegre, Manapana, Floresta II e Terra Nova. O objetivo da visita, segundo o documento, foi a “captura e identificação das espécies de quirópteros devido as agressões humanas por esta espécie anima, a fim de realizar o controle e prevenção da raiva nas comunidades, além da supervisão no município.”  

Os agentes de Endemias ficaram surpresos com a quantidade de moradores de Lago das Pedras e Tapiira atacados por morcegos, sendo a maioria da espécie Desmodus rotundus  – conhecida como morcego-vampiro.

A viagem de campo à Resex Rio Unini foi realizada entre os dias 13 a 29 de setembro de 2016. Os agentes de Endemias da Fundação de Vigilância em Saúde de Manaus, Sérgio Martins e Raimundo Diniz Barreto, que participaram do relatório, que foi assinado pela médica veterinária-sanitarista Ana Cristina Campos, Gerente de Zoonoses. No documento, eles dizem que no período de janeiro a setembro do mesmo ano foram mordidos por morcegos 25 moradores da Comunidades Lago das Pedras e 70 pessoas da Comunidade Tapiira, onde mora a família de Levi Castro da Silva. As partes atingidas foram os pés, mãos, tornozelos, cotovelos e nariz.

No relatório, os agentes de Endemias enfatizaram “a necessidade de soro vacinação antirrábica humana a todas as pessoas agredidas por morcegos e o monitoramento de novas agressões”. E destacaram: “a equipe de vacinadores do município (de Barcelos), realizou a atividade de imunização de cães e gatos devido à enorme quantidade de agressões por morcegos nestes animais.” 

A recomendação não foi atendida. Segundo a Fundação de Vigilância em Saúde do Amazonas, enquanto na área urbana a prevenção à raiva é feita com a vacinação de cães e gatos, para evitar a circulação do vírus, na área rural é recomendada a vacinação e a aplicação de soro antirrábico das pessoas mordidas por morcegos ou outros animais em uma unidade básica de saúde. “O Ministério da Saúde não prevê vacinação de rotina, é aplica somente nos casos após agressão por animais”, afirma nota enviada pela FVS.

Após a morte Lucas Castro, neste domingo (19) os moradores da Comunidade de Tapiira, que foram mordidos por morcegos, começaram a receber atendimento. Na comunidade vivem 35 famílias. A Fundação de Vigilância em Saúde (FVS) disse em nota que a campanha de vacinação no Rio Unini está em curso.

O tratamento preventivo consiste em quatro doses de vacinas, num intervalo de três, sete e quatorze dias, que servem para induzir o corpo a produzir anticorpos contra a raiva, e o soro, com anticorpos já prontos para combater o início de uma possível infecção. É o mesmo procedimento adotado por exemplo quando alguém é mordido por um cão ou um gato na cidade.

Para as famílias do Rio Unini, que vivem a horas de viagem de um centro urbano, porém, chegar a um posto de saúde é bastante complicado, conforme relata Tertuliano da Silva Prata, de 57 anos. Ele esteve no hospital da Fundação de Medicina Tropical para prestar solidariedade ao amigo Levi, pai de Lucas Castro.

O ribeirinho explica que as comunidades ficam muito distantes dos postos de atendimento de emergência. Ex-morador da comunidade Terra Nova, Prata conta que de lá até Barcelos são 30 horas de barco. “Não tem assistência médica na comunidade o tempo todo. Ninguém tem como chegar ao hospital mais próximo, porque tem custos e as pessoas não tem seu próprio meio de viajar”.

Ele diz já ter sido mordido por morcego, mas agiu como agem praticamente todos os ribeirinhos da região nessa mesma situação, cuidou do ferimento, não procurou o serviço de saúde. “Eu coloquei iodo na mordida, que a gente usa lá, e esperei sarar. Não senti nada depois”, recorda.

 

Alerta contra matança de morcegos

Morcego Desmodus rotundus (Foto atravésdemisojos/Flickr

A Amazônia Real conversou com o biólogo Wilson Uieda, professor da Universidade Estadual Paulista em Botucatu (Unesp), que tem grande experiência na investigação de casos de raiva em todo o Brasil. Segundo ele, caso seja confirmada que a raiva seja a causa da encefalite viral nos três moradores da Resex Rio Unini, isso não é suficiente para afirmar que os morcegos sejam responsáveis pela transmissão. Ele lembra que a Amazônia tem registro de raiva transmitida por cães.

Uieda afirma que ataques de morcegos a ribeirinhos na Amazônia são corriqueiros, mas não significam que essas pessoas estejam sendo infectadas pela raiva. “É preciso saber se é raiva e então verificar se realmente foi transmitida por morcego hematófago. Se for outra espécie de morcego ou outro animal, o procedimento a ser adotado é diferente”, diz o especialista. “Não deve haver matança indiscriminada de morcegos sem saber o que está acontecendo”, alerta.

De El Salvador, onde participa de um evento, disse que está programando uma viagem para o Amazonas, no final do mês, para contribuir com as investigações no Rio Unini. De acordo com ele, os morcegos hematófagos se alimentam do sangue de animais silvestres, mas com a redução das presas naturais como catitus, antas e pacas, buscam animais domésticos e seres humanos para se alimentar.

Na conversa, por meio de uma rede social, ele destacou que a melhor maneira de prevenir a raiva é a educação e conscientização. Uieda ressalta que há dificuldades e até resistência de populações do interior em se submeter ao tratamento preventivo, em caso de mordida de animais. A vacinação é complicada, conforme ele explica, exigindo de 4 a 5 aplicações, ao longo de um mês, além da soroterapia. Além disso, a injeção é bastante dolorida.

“A primeira providência a ser adotada é a soro vacinação, mas muitas vezes o município não tem recursos, porque a aplicação de soro precisa de gente especializada”, esclarece o biólogo, que fez um pós-doutorado do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), em Manaus. “Os ribeirinhos não têm noção do risco que correm, porque pensam se tratar de uma doença como a malária, que é só ir no posto médico e tomar o remédio para resolver”, lamenta.

 

Esta reportagem foi atualizada em 21/11/2017.

 

 

Os textos, fotos e vídeos publicados no website da Amazônia Real estão licenciados com uma Licença Creative Commons – Atribuição 4.0 Internacional e podem ser republicados na mídia com os créditos dos autores e da agência. 

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Jovem da Resex Rio Unini morre com suspeita de raiva humana em hospital de Manaus

Amazônia Real - sab, 18/11/2017 - 09:05

Associação diz que 88 moradores da reserva foram atacados por morcegos, mas a maioria não tomou vacinas (Foto de Josângela Jesus/ Facebook da Resex Unini) 

 

Um adolescente de 17 anos da comunidade ribeirinha Tapiira, na Reserva Extrativista Rio Unini, município de Barcelos, no norte do Amazonas, morreu nesta quinta-feira (16) com sintomas de encefalite viral (inflamação no cérebro) no Hospital 28 de Agosto, em Manaus. Há suspeita é de que ele tenha sido infectado pelo Lyssavirus, que provoca a raiva humana. Segundo a Associação de Moradores do Rio Unini (Amoru), Lucas foi mordido diversas vezes por morcegos, animais que são comuns na região de floresta nativa.  

A Fundação de Medicina Tropical informou à agência Amazônia Real que a causa da morte do garoto será investigada. Mais duas pessoas da mesma comunidade, uma menina de 10 anos, irmã do garoto, e um homem de 44 anos, estão internadas em estado grave com sintomas de encefalite viral no hospital da fundação, em Manaus. Os nomes dos dois pacientes não foram divulgados.

O infectologista Antônio Magela Tavares, chefe do Departamento Clínico da Fundação de Medicina Tropical, disse à reportagem que a instituição fará a necropsia no corpo do adolescente Lucas. Serão realizadas coletas de amostras de pelos e de sangue da menina também para exames. O objetivo é descobrir a causa da morte, diz o médico.

O corpo do adolescente foi liberado neste sábado (18) pela Fundação de Medicina Tropical para o sepultamento em Novo Airão (a 180 quilômetros de Manaus) onde estão seus familiares, informou a associação. 

Segundo informações do Portal Saúde, do governo federal, os últimos casos de raiva humana no Amazonas foram registrados em 1988, 1999, um em cada ano, e 2002, quando surgiram dois casos. O Portal registra que todos os casos resultaram em óbito.

De acordo com a Associação dos Moradores do Rio Unini, a comunidade Tapiira fica na margem do Rio Unini, afluente do Rio Negro, distante a cerca de 400 quilômetros de Manaus. Este ano, conforme a associação, 88 pessoas dessa mesma comunidade foram mordidas por morcegos, algumas por mais de 20 vezes. 

O presidente da associação, José Dionísio da Silva contou à Amazônia Real que no mês de dezembro de 2016 pediu providências à Fundação de Vigilância em Saúde, ligada à Secretaria de Estado de Saúde do Amazonas (Susam), para vacinar moradores e combater a grande quantidade de morcegos nas dez comunidades da reserva. “A FVS enviou equipes para três comunidades”, conta Dionísio. “Não tive notícia de irem a outros lugares”.

A raiva é transmitida para pessoas a partir da mordida de animais doentes. Há risco de contágio por qualquer mamífero, embora casos de transmissão por cães e morcegos sejam mais frequentes. O vírus, que provoca uma encefalite viral, se instala nos nervos periféricos do sistema nervoso central.

Vacinas antitetânica e antirrábica humana podem ser prescritas para pessoas atacadas por morcegos e assim protegê-las da raiva. A associação do Rio Unini diz que a maioria dos moradores da reserva nunca recebeu essas vacinas. 

Informado pela agência Amazônia Real sobre o número de pessoas da comunidade Tapiira mordidas por morcegos, por várias vezes, o infectologista Antônio Magela Tavares disse que esses ataques indicam a hipótese de infecção pelo vírus da raiva. “Mas a gente não pode confirmar nada”, destacou o médico.

  Quando surgiu os casos?

Comunidade Tapiira, banhada pelo Rio Unini (Foto de Josângela Jesus/ Facebook da Resex Unini)

Conforme apurou a reportagem da Amazônia Real, os sintomas de encefalite viral surgiram no jovem Lucas Castro na semana passada. Após sentir dores no quadril, que evoluíram para a paralisia das pernas, o adolescente foi levado ao hospital da cidade de Barcelos. Na quarta-feira (15), ele foi transferido, em viagem de barco e carro, em estado grave para o Hospital 28 de Agosto em Manaus, mas morreu no dia seguinte.

A menina, irmã de Lucas, sentiu os mesmos sintomas na terça-feira (14). No hospital de Barcelos, ela foi submetida a uma cirurgia de apendicite. Após o procedimento, seu estado de saúde se agravou. Nesta sexta-feira (17), ela foi transferida de avião para Manaus onde foi internada na Unidade de Tratamento Intensivo da Fundação de Medicina Tropical. De acordo com o hospital, seu estado é grave, porém estável.

O terceiro caso de morador da Comunidade Tapiira internado com suspeita de encefalite viral é de um homem de 44 anos. Ele sentia dores no quadril. Foi internado no hospital de Barcelos, mas seu quadro agravou-se. Ele foi transferido em uma viagem de barco com duração de 20 horas pelo rio Negro para Manaus na noite desta sexta-feira (17), onde foi internado na Fundação de Medicina Tropical.

 

Primeira suspeita no Unini

Comunidade Floresta da Resex Rio Unini (Foto cedida por: Steve McCool/ University of Montana)

O presidente da Associação dos Moradores do Rio Unini (Amoru), José Dionísio da Silva, conta que casos de mordidas de morcego são comuns na região, embora em 75 anos de vida nunca tenha tido notícia de caso de suspeita de raiva na localidade. Ele contou que, após a morte do adolescente Lucas Castro, recebeu informações que equipes da Fundação de Vigilância em Saúde de Barcelos e Novo Airão estão a caminho da reserva para vacinar a população.

Há a informação, ainda não confirmada, de que uma equipe da Fundação em Vigilância em Saúde do Amazonas parte na manhã deste sábado (18) à Resex. 

A Reserva Extrativista Rio Unini é vizinha ao Parque Nacional do Jaú e foi criada em 2006 pelo governo federal para atender à reivindicação das comunidades que estavam ameaçadas de serem retiradas do parque, criado em 1980 com 2,27 milhões de hectares. A Resex se estende por quase 850 mil hectares, no município de Barcelos. O acesso é por barco em viagem pelo Rio Negro.

As famílias extrativistas do Unini moram em dez comunidades: Lago das Pedras, Terra Nova, Democracia, Patauá, Tapiira, Manapana, Lago das Pombas, Floresta II, Vista Alegre e Vila Nunes. Atualmente, as comunidades, as organizações não governamentais (Ong´s) e o Instituto Chico Mendes da Biodiversidade (ICMBio) buscam formas de conciliar a gestão e a conservação da área.

Nesta sexta feira (17), em sua página do Facebook a Reserva Extrativista Rio Unini divulgou uma nota de pesar pela morte do jovem. A morte do garoto provocou uma comoção nas dez comunidades da reserva.  “A Resex do Unini, o Parque Nacional do Jaú, os Jovens Protagonistas e todo o Rio Unini estão de luto, pela partida do nosso querido jovem, Lucas Castro. É uma tristeza que não cabe no peito.
Que Deus o receba com todo o amor e conforte seus familiares, amigos, toda a família Unini. Débora e Levi, estamos com vocês.”

A reportagem da Amazônia Real não conseguiu localizar os responsáveis pela Fundação de Vigilância em Saúde (FVS) e pela Secretaria de Estado de Saúde do Amazonas (Susam) para falar sobre os casos de suspeita de raiva humana em moradores da Resex Unini.  Como também se a FVS enviará equipes de vacinação para atender à população. 

Em nota oficial enviada neste sábado (18), a Susam comunicou à imprensa de Manaus que amanhã (19) enviará uma equipe de vigilância ambiental da Fundação de Vigilância em Saúde (FVS-AM) à Comunidade Tapiira, na Resex Rio Unini, em Barcelos. O objetivo é reforçar medidas de prevenção e controle contra a raiva humana na localidade. “O trabalho será focado na investigação, busca ativa de novos casos, profilaxia com vacinação e soro para quem foi agredido por morcego. Além disso, vacinação de cães e gatos, captura e controle dos morcegos hematófagos e de animais domésticos suspeitos, coleta de amostras e ações de educação em saúde.  A FVS-AM também notificou o Ministério da Saúde sobre os casos”, disse a secretaria.

Segundo a Susam, foram disponibilizadas para o município de Barcelos cerca 750 doses de soroterápicos, incluindo 250 vacinas antirrábicas humanas, 250 vacinas antirrábicas caninas e 250 soros antirrábicos, além de 100 mosquiteiros impregnados e 200 frascos de repelentes.

Em Manaus, diz a Susam em nota, uma equipe do Centro de Informações Estratégicas de Saúde (CIEVS/FVS-AM), Vigilância Epidemiológica (FVS-AM), Centro de Referência de Imunobiológicos Especiais (CRIE/FMT-HVD) e Laboratório Central de Saúde Pública (LACEN/FVS-AM) estão prosseguindo com a investigação para apurar as causas dos três casos diagnosticados, inicialmente, “como encefalite – inflamação e infecção agudas no cérebro causadas por vírus ou bactéria.”

Na mesma nota da Susam, a FVS-AM informou que, em setembro de 2016 uma equipe de controle de zoonoses da fundação realizou atividades na calha do rio Unini, incluindo a comunidade de Tapiira, onde vivia o adolescente Lucas Castro, que foi atacado por morcegos diversas vezes. “Na ocasião, foram coletados morcegos, sem positividade para o vírus da raiva e realizado tratamentos por meio de pasta vampiricida para o controle da população de quirópteros hematófagos (Desmodus rotundus), além de ações de orientação aos moradores e medidas educativas.”

 

Este texto foi atualizado com a nota da Susam.

                                      

 

Os textos, fotos e vídeos publicados no website da Amazônia Real estão licenciados com uma Licença Creative Commons – Atribuição 4.0 Internacional e podem ser republicados na mídia com os créditos dos autores e da agência. 

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Quilombolas exigem leis adequadas à sua realidade produtiva

Instituto Socioambiental - sex, 17/11/2017 - 15:30

Com dificuldades para comercializar produção, comunidades do Vale do Ribeira se unem a movimentos que defendem o fazer artesanal e pedem regras que valorizem seu conhecimento e modo de vida tradicional

QuilombolasVale do Ribeira

Amazonino quer legalizar garimpo que foi estopim de ataques em Humaitá

Amazônia Real - sex, 17/11/2017 - 13:30

O governador do Amazonas, Amazonino Mendes (PDT), deve regularizar as cooperativas de garimpo que exploravam ouro de forma ilegal no rio Madeira, nos municípios de Humaitá, Manicoré, Borba e Novo Aripuanã, no sul do estado, na divisa com Rondônia. Ao menos 42 garimpeiros ligados a essas cooperativas foram multados em R$ 2.351.500,00 pela operação Ouro Fino do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) por crimes ambientais dentro da Floresta Nacional de Humaitá, uma unidade de conservação de uso sustentável.

Foi na Flona Humaitá que a operação Ouro, que contou com o apoio do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) e da Marinha do Brasil, apreendeu, no dia 24 de outubro, 48 balsas de um total de 200 avistadas pela fiscalização. Das balsas apreendidas, 34 foram destruídas com fogo pelos fiscais; outras sete afundaram “sem a intervenção da fiscalização” e sete foram apreendidas, diz o órgão federal.

Como retaliação à operação, no último dia 27 de outubro, os garimpeiros, apoiados por madeireiros e políticos das cidades de Humaitá, Apuí e do Distrito de Santo Antônio do Matupi (em Manicoré), incendiaram os prédios do Ibama, do ICMBio e do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra). Eles destruíram veículos e uma embarcação do ICMBio, e tentaram atacar a Agência Fluvial de Humaitá da Marinha do Brasil. 

Ameaçados pelos garimpeiros, 21 servidores públicos e familiares dos militares foram retirados escoltados de Humaitá pela Polícia Federal e Polícia Rodoviária Federal e levados em segurança para um refúgio em Porto Velho (RO).

Segundo o Instituto de Proteção Ambiental do Amazonas (Ipaam), órgão dirigido pelo secretário de Meio Ambiente Marcelo Dutra, o governo quer regularizar as cooperativas de mineração no rio Madeira, mas exige a solicitação de licenças ambientais para extração em uma região fora da Flona de Humaitá. Também reconhece a atividade artesanal e familiar de extração de ouro do Amazonas e na busca pela eliminação do uso de mercúrio.

“Estão sendo realizadas reuniões com os representantes legais das cooperativas para discutir soluções que resultem na regularização da atividade de mineração no rio Madeira”, disse o Ipaam, confirmando que garimpagem será legalizada.

Garimpeiros incendiaram prédios públicos em Humaitá (Foto reprodução Youtube)

Os danos ambientais encontrados pelo Ibama na Flona de Humaitá foram a poluição das águas por mercúrio e outros resíduos (combustíveis e óleos e rejeitos), além de assoreamento do leito do rio Madeira. A poluição, segundo o instituto, provocou impactos irreversíveis à fauna e à flora aquáticas da região, além de consequências à saúde humana e ao bem-estar dos habitantes e visitantes do manancial, um afluente do rio Amazonas.

A operação do Ibama, conforme apurou a reportagem, desestabilizou um negócio que movimentava cerca de R$ 672 milhões por ano. Cada balsa destruída custava, em média, R$ 50 mil, o que significa que o investimento na mineração no Madeira é alto e envolve mineradores, comerciantes e políticos do Amazonas, Rondônia e até da Bolívia.

Uma investigação foi aberta pela superintendência da PF em Rondônia para apurar crimes de ameaça e depredação ao patrimônio público, formação de organização criminosa, além de tentar identificar os financiadores do garimpo no Madeira. São suspeitos de envolvimento no caso o prefeito de Humaitá, Herivâneo Seixas (Pros) e vereadores. O prefeito nega participação nos incêndios dos prédios, mas admitiu que apoiou o que chama de “manifestação dos garimpeiros”.

 

O apoio de Amazonino

Governador do Amazonas, Amazonino Mendes (Foto: Antonio Cruz/Agência Brasil)

Governador do Amazonas por três vezes, Amazonino Mendes assumiu o quarto mandato em 04 de outubro último após vencer a eleição suplementar para um mandato-tampão até dezembro de 2018. Na campanha eleitoral, ele prometeu flexibilizar as licenças ambientais para empreendimentos do agronegócio no entorno e dentro de Unidades de Conservação (UC´s) estaduais.

Com apoio de Amazonino, a regularização das cooperativas do rio Madeira tramita na Secretaria de Estado do Meio Ambiente (Sema), através do Ipaam. O chefe de ambas as instituições, o secretário Marcelo Dutra, esteve na quarta-feira (15) na 23º Conferência das Nações Unidas sobre Mudança Climática (COP23) em Bonn, na Alemanha. Ele anunciou um programa de redução de emissões de gases do efeito estufa (GEE) e de combate ao aumento da temperatura global por parte do Amazonas.

Procurado pela agência Amazônia Real por telefone, Dutra não atendeu à reportagem para falar sobre o licenciamento da atividade de mineração das seguintes cooperativas: Cooperativa de Garimpeiros da Amazônia (Coogam), Cooperativa dos Extrativistas Minerais Familiares de Manicoré (Cooemfam) e Cooperativa dos Extrativistas Minerais Familiares de Humaitá (Cooemfah).

O Ipaam disse, por meio da assessoria de imprensa, que as solicitações das licenças ambientais das cooperativas estão sendo analisadas. Um termo de ajustamento de conduta está em estudo desde o dia 31 de outubro. “Cada processo está sendo analisado individualmente, a fim de identificar o passivo existente, o que deixou de ser atendido e estabelecer prazos para que legislação seja cumprida. Não há prazo estabelecido para a liberação do licenciamento às cooperativas”.

 O garimpo na região foi regulamentado pela resolução do Conselho Estadual de Meio Ambiente (Cemaam) noº 14, de 18/10/2012, durante o governo de Omar Aziz (PSD), que atualmente é senador. O documento diz que é “proibida a atividade de lavra garimpeira de ouro com o uso do mercúrio em sistemas aquáticos com pH menor do que 5”.”

Antes da operação Ouro Fino do Ibama, no entanto, o Ipaam denunciou ao órgão o garimpo ilegal e uso de mercúrio na extração de ouro no rio Madeira. As cooperativas tiveram as licenças ambientais suspensas este ano, durante o governo interino de David Almeida (PSD), deputado estadual e presidente da Assembleia Legislativa do Amazonas.

Conforme informações do instituto, quatro licenças eram da Coogam (concedidas entre 2012 a 2015), três da Cooemfam (de 2014 a 2016) e uma para Cooemfah (de 2011 a 2012). Nesse período da concessão das licenças às cooperativas, além de Aziz, que permaneceu no cargo de 2010 a 2014, foi governador também José Melo (Pros), de 2014 a 2017. Ele foi cassado em maio passado por compra de votos na eleição junto com o vice-governador Henrique Oliveira (PSD). Com o afastamento de Melo, David Almeida assumiu o cargo entre maio e outubro deste ano, quando Amazonino Mendes assumiu o governo após ganhar as eleições suplementares. Na campanha, ele foi apoiado por Aziz e Melo, além do prefeito de Manaus, Arthur Virgílio Neto (PSDB).

 

Reincidência de danos

Cada estrutura de balsa custa R$ 50 mil (Fotos: Ibama)

À Amazônia Real, o Ipaam disse que licenças da Coogam, Cooemfam e Cooemfah foram suspensas em função do não cumprimento de condicionantes como: “coleta, destinação e tratamento de resíduos provenientes do processo de mineração, estudo e monitoramento da qualidade da água, plano de monitoramento e prevenção de contaminação da água por mercúrio, avaliação de impactos socioambientais, regularização de balsas junto a Marinha, plano de controle ambiental, licença da prefeitura, entre outras informações que garantam segurança aos recursos naturais e que a atividade seja feita de acordo com a legislação ambiental.”

O Ipaam disse ainda que “após vistorias os fiscais estaduais constataram que os requisitos legais e ambientais previstos nas resoluções para lavra garimpeira de ouro do Conselho Estadual de Meio Ambiente (Cemaam) não foram atendidos” pelas três cooperativas.

“Os requisitos são estabelecidos pela Resolução Cemaam n° 14 de 18 de outubro de 2012. Ela altera a resolução 011/2011 e estabelece procedimentos a serem observados no licenciamento ambiental para a atividade da lavra garimpeira de ouro no Amazonas. O processo deve seguir rigorosamente os critérios da legislação e passar pela análise do Ipaam”, diz o órgão ambiental estadual.

Segundo o Ipaam, outro motivo para a não renovação das licenças das três cooperativas teve como embasamento a falta de estudos e apresentação de análises da qualidade da água e do sedimento do rio que comprovassem que os recursos naturais não estavam sendo ou não corriam risco de contaminação por mercúrio.

“A licença ambiental é concedida pelo Ipaam somente depois que o interessado pela exploração minerária passa, primeiro, pelos trâmites estabelecidos pelo Departamento Nacional de Produção Mineral (DNPM), que homologa a Permissão de Lavra Garimpeira (PLG)”, diz o órgão.

 

Área ambiental indecisa 

Na área ambiental do Amazonas a notícia da regularização dos garimpos no rio Madeira causou reação negativa e positiva. Conselheiros do Conselho Estadual do Meio Ambiente (Cemaam), ouvidos pela reportagem, mas que não quiseram ser identificados, dizem que a percepção é de que haverá um “liberou geral” na concessão das licenças para o garimpo.

O Cemaam é formado pelos mais diversos segmentos da sociedade – como ONGs, associações, sindicatos, cooperativas e outros. Há entre os conselheiros os que defendem uma abertura mais ampla para a atividade de mineração, vista como principal fonte de renda para as famílias ribeirinhas.

 

Apoio da base política

Reunião liderada pelo deputado Cabo Maciel (Reprodução do Facebook)

A decisão do governador Amazonino Mendes de regularizar as cooperativas de garimpeiros no rio Madeira é apoiada por deputados da base governista. No dia 30 de outubro, logo após os ataques em Humaitá, garimpeiros, vereadores e o prefeito Herivâneo Seixas foram recebidos em uma reunião na sede do Ibama no Amazonas, em Manaus, a convite dos deputados Cabo Maciel (PR) e Abdala Fraxe (Podemos). Após a reunião, Maciel divulgou em sua página no Facebook que o superintendente do Ibama, José Leland Barroso, que estava na reunião, aceitou suspender a operação Ouro Fino na região do rio Madeira até a regularização das cooperativas pelo Ipaam.

“O superintendente [do Ibama] José Leland Barroso, que mostrava-se irredutível por considerar um ato planejado pelos garimpeiros, voltou atrás e decidiu suspender a Operação de Ouro fino no Rio Madeira até que os Extrativistas se regularizem junto aos órgãos ambientais”, disse o deputado Maciel. Veja aqui.  Abaixo fala do deputado na TV da Assembleia Legislativa do Amazonas: 

http://amazoniareal.com.br/wp-content/uploads/2017/10/CABO-MACIEL-FALA-A-TV-ALEAM-REP-FACEBOOK.mp4   O que diz o Ibama?

Em entrevista à Amazônia Real, o superintendente do Ibama, José Leland Barroso, negou que voltou atrás na permanência da operação Ouro Fino e classificou como “absurda” a declaração do deputado Cabo Maciel sobre a suspensão da fiscalização no rio Madeira.

“Eu disse na reunião que o tempo que eles têm para se licenciar é o tempo que a gente terá para se reorganizar. Os garimpeiros destruíram tudo. Se não tiver licenciado, quando a gente retornar, será retirado. O garimpo irregular não vai continuar.” 

Segundo ele, o Ibama vai voltar a atuar em Humaitá, mas com um posto avançado dentro da unidade do Exército e com quadro de pessoal rotativo.

Sobre os ataques dos garimpeiros aos prédios públicos, Barroso disse que foram premeditados. “Foi um ato terrorista, tinha profissionais treinados, coquetel molotov. Isso já estavam organizando havia muito tempo. Houve, inclusive, uma reunião com os madeireiros no Matupi e Apuí”, disse o superintendente do Ibama.

Em relação à regularização das cooperativas de garimpeiros pelo governo de Amazonino Mendes, Barroso disse que o rio Madeira está bastante impactado por mercúrio. Ele estimou em mais de 400 balsas de garimpo explorando ao longo do manancial, no estado do Amazonas. Em Rondônia seriam mais de 60.

“Além do garimpo, o Madeira já tem duas hidrelétricas [Santo Antônio e Jirau]. É um rio todo arrebentado, que não aguenta mais insulto e desaforo. Isso termina inviabilizando a própria navegação”, disse José Leland Barroso.

Diferente do Amazonas, em Rondônia a Secretaria de Estado de Desenvolvimento Ambiental (Sedam) proibiu a mineração no rio Madeira e intensificou a fiscalização. Segundo o site G1, a Sedam também suspendeu as análises de processos de licenciamento ambiental que estavam em andamento na região. “Antes a proibição era de cinco quilômetros depois da ponte, agora a área de proibição chega à fronteira do Amazonas”, explica a secretária Vilson Sales.

Em nota enviada à reportagem, a Marinha do Brasil afirmou “vem acompanhando, com atenção, a evolução sistemática da garimpagem em toda a extensão do Rio Madeira e que tem realizado Operações de Patrulha, Patrulhamento e Inspeções Navais (IN) em toda a extensão do referido rio, com significativas constatações de irregularidades, para as quais foram tomadas providências administrativas proporcionais às infrações constatadas em cada situação, variando de simples notificações, passando por apreensões e, nos casos mais graves, apresamentos dos conjuntos balsas e dragas.”

 

WCS faz alerta do uso de mercúrio

Balsa de garimpo no rio Madeira. (Foto: Ibama)

A organização ambientalista WCS Brasil (Associação Conservação da Vida Silvestre) enviou uma carta nesta sexta-feira (17) ao governador do Amazonas, Amazonino Mendes, solicitando o cumprimento da legislação ambiental em vigor. No documento, a organização manifesta o apoio aos esforços do Ibama, ICMBio, Ipaam, Polícia Federal, Funai e do Batalhão de Polícia Ambiental do Amazonas em conter as ações de garimpo ilícitas. Diz que a atividade vem ameaçando a integridade ambiental em diversas áreas no sul do Amazonas, assim como afetando negativamente a saúde da população de diversos municípios. “Solicitamos toda a atenção do atual governo em fazer-se cumprir a legislação vigente, mantendo as ações de fiscalização e controle desta atividade que é altamente impactante sobre a Natureza e as Pessoas que nela vivem e dela dependem”, diz o WCS.

A organização alertou o governador do uso de mercúrio nos garimpos do rio Madeira. “Ao se discutir a atividade de garimpo de ouro no Estado, que se leve em consideração o princípio da precaução, ainda mais quando se trata do uso indiscriminado do mercúrio, assim como de equipamentos altamente agressivos, como dragas, que afetam de forma bastante negativa os leitos dos rios e sua dinâmica hidrológica.”

E concluiu: “importante ainda ressaltar que no Amazonas existe um excelente corpo técnico e científico de renomadas instituições que devem ser consultados pelo Cemaam no processo de analise e construção de qualquer decisão seja tomada em relação a esta atividade”, disse a WCS Brasil. (Colaboraram Kátia Brasil e Fábio Pontes)

 

Leia também o artigo: 

A dualidade (inaceitável) do Estado com o ambiente de faroeste caboclo na Amazônia

 

A Polícia Federal abriu investigação para apurar os ataques em Humaitá (Foto: Facebook do Cabo Maciel)

 

Este texto foi atualizado às 14h57 para incluir a nota da WCS Brasil 

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A dualidade (inaceitável) do Estado com o ambiente de faroeste caboclo na Amazônia

Amazônia Real - sex, 17/11/2017 - 13:28

As lógicas do poder executivo central convergem com a do legislativo que falaciosamente usa a representação como substituição do eleitor legislando à sua vontade e interesses. Efetivamente, tem-se o ministro de minas e energia justificando a extinção da RENCA para legalizar os garimpos ativos à revelia da lei ao invés de combatê-los. Depois de ter sua imagem e áudios divulgados em vídeo no grupo que incendiou as sedes do IBAMA e do ICMbio juntamente com viaturas, o prefeito de Humaitá (AM) se disse obrigado a participar do motim sob coerção dos envolvidos ao invés de convocar a segurança policial e comunicar o ministério público e o judiciário.

Nos fatos acima evocados, estão demonstradas aquiescências de agentes públicos a ações ilegais de práticas de garimpos na Amazônia e na destruição de patrimônio público. Vale lembrar que em janeiro de 2013 houve na mesma cidade de Humaitá incêndios das sedes da FUNAI e da FUNASA com respectivas destruições de viaturas em protestos ao desaparecimento de três pessoas que transitavam na área indígena Tenharim na BR-230. Como resultado, cinco índios da referida etnia foram julgados e presos como autores das mortes dessas três pessoas, mas não há notícia de que tenham sido julgados os autores dos incêndios ao patrimônio público.

Nos dias atuais, quando vêm de agentes públicos, os discursos têm função de justificar o reprovável sem qualquer menção de culpa (e nem de desculpas) ou de arrependimento. Essa é a lógica da dualidade do capitalismo e do Estado à brasileira que, sem qualquer esforço, percebe-se concretamente que o poder público tem sido mero ente formal para efetivação de interesses particulares: é a cordialidade de Sergio Buarque, ainda.

Nessa lógica do Estado como via de interesses particulares sob a batuta do capitalismo tardio de um imenso faroeste, em pretenso discurso e práticas de desenvolvimento, ocupam a Amazônia legal com posseiros, grileiros, assentados, garimpeiros, pecuaristas, agricultores que, paradoxalmente, são vítimas do próprio Estado e vilões porque lhes são atribuídas (in) responsabilidades do poder público.

Desde o século XVIII a Amazônia tem sido sacrificada por práticas orientadas pela mentalidade ocidental exploradora indiferente ao respeito ao outro, pois nessa perspectiva, a Amazônia é outra realidade sangrada por meios mais simples e menos custosos tanto financeira como racionalmente. Não há, portanto, nenhuma política pública de desenvolver tecnologias para se aproveitar os recursos da flora, da fauna e do subsolo amazônicos de forma racional e menos depredadora.

Já passou da hora de ao invés de combater incêndios, garimpos, grileiros, desflorestamentos e outros tipos de dolos ambientais nos concentrarmos em criar e construir alternativas de extração desses recursos naturais de forma racional e encararmos que todo desenvolvimento é ideologicamente engessado no capitalista fundamentado na exploração, por conseguinte, desenvolvimento sustentável pode ser uma falácia de retardamento para não se encarar o óbvio à guisa de uma rotina de Sísifo.

 

A fotografia que ilustra este artigo é do assoreamento do Rio Madeira por balsas e dragas de garimpos (Foto: Ibama)

                   

Dalvo Cruz é professor de antropologia e de filosofia. Tem experiência em educação indígena, doutorado em Linguística pela Universidade de Paris IV, mestrado em Educação pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, especialização em Antropologia na Amazônia pela Universidade Federal do Amazonas e graduação em Filosofia pelo Centro Universitário Assunção.

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Recomendada por nutricionistas e chefs, farinha de babaçu ganha espaço nas merendas em SP e no Pará

Instituto Socioambiental - sex, 17/11/2017 - 09:15

Associações extrativistas e ISA trabalham pela inserção da farinha de babaçu em escolas na região do Médio Xingu; Bela Gil e Alex Atala testaram e aprovaram receitas

A lição do livro de ouro da Amazônia

Amazônia Real - qua, 15/11/2017 - 12:27

Num momento em que o país se vê ameaçado com perdas de muitas conquistas históricas, e com um governo que já explicitou a vontade de “vender” a Amazônia, é fundamental que o povo brasileiro conheça melhor esse território do planeta, para que se aposse dele e o defenda como seu. Segundo o ambientalista João Meirelles Filho, presidente do Instituto Peabiru, com sede em Belém do Pará, a Amazônia representa 60% do país, e por isso deveria ser objeto de disciplina obrigatória por um ano no primeiro grau, por seis meses no segundo grau e um ano na universidade. Em 2004, ele publicou, pela Ediouro, “O Livro de Ouro da Amazônia: mitos e verdades sobre a região mais cobiçada do planeta”, com 10 capítulos que merecem ser lidos e estudados por professores e estudantes do ensino médio e universitário, para que possam se preparar para o desafio de conhecer mais sobre a Amazônia e repassar as informações adiante. Com isso, poderão ajudar outras pessoas como estudantes e componentes de grupos sociais a sentirem a importância de se apoderarem das águas, das árvores, dos animais e de toda a biodiversidade amazônica, protegendo-os das ameaças da ignorância e da indiferença dos governantes. É isso que coloca em risco não somente os recursos naturais da floresta, como também a vida das populações tradicionais como os indígenas e os caboclos.

A seguir, estão alguns dados sobre a estrutura do livro, com seus respectivos capítulos e seus conteúdos, para que o leitor fique motivado a ler a obra original.

No breve capítulo I, “Os falsos mitos sobre a Amazônia” (p. 22-23), Meirelles comenta o despreparo das pessoas que vieram e continuam vindo para a Amazônia como migrantes, empresários etc., acreditando em seis mitos falsos sobre a região como sendo:

1 – Pulmão do mundo, sem considerar que as intervenções mal planejadas nesse ambiente poderão comprometer não somente a região, como também todo o planeta;

2 – Vazio territorial, uma ideia que leva as pessoas a querem povoar a Amazônia, sem levar em conta que neste território já vivem mais de 170 povos indígenas, com uma forma diferenciada de viver e de ocupar a terra;

3 – Planície inundável, como se esse território estivesse sempre ameaçado pelas águas, sendo que apenas 3% da área são de várzeas e igapós;

4 – Floresta sobre o deserto, sem levar em conta que, na Amazônia, há uma grande variedade dos tipos de solo e vegetais, que não são apenas áreas de floresta, como também savanas e campos;

 5 – Celeiro do mundo, que leva à crença de que é preciso ocupar a terra com criação de gado e agricultura, sem considerar a fragilidade do solo para o desenvolvimento de produtos de outras regiões do país;

6 – Eldorado para os garimpeiros e aventureiros, que vêm para a região atraídos para a exploração de minérios, sem se preocupar com o impacto social e ambiental.

Arquipélogo de Anavilhanas, em Novo Airão, no Amazonas (Foto: Alberto César Araújo/Amazônia Real)

 

No capítulo II, “As dimensões da Amazônia” (p. 24-27), estão alguns dados que evidenciam a grandeza da Floresta Amazônica, comparada com outras florestas tropicais do planeta. A Amazônia é uma região que se estende por nove países (Brasil, Bolívia, Colômbia, Equador, Guiana, Guiana Francesa, Peru, Suriname e Venezuela), representando 5% de terra firme do globo. No Brasil, envolve os estados do Acre, Amapá, Amazonas, Mato Grosso, Maranhão, Roraima, Rondônia, Pará e Tocantins, e estabelece 11.248 km de fronteiras internacionais e 1.482 km de costa marítima.  

No capítulo III, “A Amazônia Física” (p. 28-57), há mais dados específicos sobre clima, chuvas, ciclos de nutrientes, geologia, relevo, solo, águas, vegetação, mostrando a importância que cada um tem nos ciclos da vida e suas especificidades em relação às outras regiões do país.

No capítulo IV, “A vida amazônica – a biodiversidade” (p. 59-79), o autor aborda sobre as diferentes espécies que vivem na Amazônia, como os invertebrados, animais dos ambientes aquáticos como peixes, assim como outros como anfíbios, répteis, aves e mamíferos que vivem na terra. Também há comentários sobre o papel da ciência e das unidades de conservação.

No capítulo V, “Os povos nativos da Amazônia” (p.80-97), apresenta dados sobre a origem dos povos com suas culturas de plantio na várzea e em terra firme, assim como as línguas faladas, formas de pensamento e organização desses povos.

No capítulo VI, “Amazônia, os últimos 500 anos” (p. 98-149), está presente um retrospecto histórico abrangente sobre a colonização dessa região, começando pelos europeus que faziam uso da mão-de-obra indígena e pilhavam os produtos locais. Baseando-se nos estudos de Darcy Ribeiro, o autor comenta a visão que o português tinha sobre os índios como uma “fonte de pecado”, porque andavam nus, praticavam ritos pagãos, infanticídio, incesto, eram antropófagos, preguiçosos, sem ambição, pois só pensavam em dançar, rir e praticar sexo. Nesse capítulo, Meirelles ainda aborda a participação dos missionários religiosos nas guerras e no processo de ocupação. Comenta sobre o interesse científico dos portugueses pela selva e os conflitos dos habitantes com as tropas imperiais. Avança na história da região até o período do ciclo da borracha, antes e depois da grande guerra, chegando à ditadura militar em 1964, seguindo pela ocupação da região de modo mais acentuado após a década de 1970 e 80, até o período da publicação do livro (2004).

Desmatamento em Alto Floresta, no Mato Grosso (Foto: Alberto César Araújo/Amazônia Real)

Desmatamento com tratores em Alta Floresta (Foto: Alberto César Araújo/Amazônia Real)

No capítulo VII, “As ameaças à Amazônia hoje” (p. 150-219), o autor trata dos riscos que esse território sofre, dizendo que ele vive ameaçado pelas “10 bestas do apocalipse”. A primeira besta é a pecuária bovina extensiva, que não leva em conta a fragilidade do solo e a incompatibilidade da convivência do gado com outros animais da floresta. A segunda é a soja, que é plantada para alimentar esse “gado chique”, cuja produção afeta a agricultura familiar e prejudica o solo, que fica sobrecarregado com uma grande carga de agrotóxicos, danosos à saúde da terra e da população. A exploração madeireira predatória é a terceira besta, com seus rastros de destruição com o desmatamento da floresta. A quarta é o modelo fundiário, que desde o período militar considera que é importante a ocupação da região por meio do desmatamento, com a expansão dos negócios por fazendeiros e grandes grupos nacionais e internacionais, favorecendo a vinda de colonos para a Amazônia sem preparo nem assistência técnica para lidar com as questões locais. A quinta besta é o narcotráfico e a guerrilha, juntamente com a grilagem, a biopirataria e o tráfico de animais selvagens. A caça predatória é a sétima besta, ameaçando as várias espécies nativas. As grandes obras hidrelétricas, hidrovias e estradas constituem a oitava besta, que desestabiliza as populações tradicionais e as comunidades indígenas, trazendo para eles problemas da civilização branca como alcoolismo, drogas, doenças sexualmente transmissíveis e outras, além das ameaças do desmatamento, queimadas, caça, biogrilagem, etc. A nona peste é o garimpo, causador das grandes tensões e conflitos de terra, levando à expulsão de comunidades tradicionais, que também sofrem com problemas de saúde e doenças, em decorrência das modificações que ocorrem no meio ambiente e na vida dos demais seres vivos que ali vivem, com a destruição da camada vegetal e dos modos de vida adotados pelos exploradores da terra. A décima peste é a pesca predatória, que representa ameaça aos peixes como o pirarucu, tambaqui, piramutaba e tucunaré, entre outros. Segundo o autor, as queimadas para a realização das diferentes atividades econômicas vêm comprometendo a vida de várias espécies de plantas e animais, além da vida dos habitantes tradicionais da região.

O capítulo VIII, “A situação social da Amazônia” (p. 220-237), traz dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) sobre a população de cada estado da Amazônia brasileira, e os problemas mais frequentes que sofrem no meio urbano e rural, em termos de saneamento, saúde, nutrição, educação e direitos à cidadania.

Mulheres artesãs do Alto Rio Negro, no Amazonas (Foto: Francineia Fontes/Foirn)

No longo capítulo IX, “Porque a Amazônia é importante para a humanidade” (p. 238-329), Meirelles Filho fornece muitas informações sobre as 12 vocações, os 12 talentos e as 12 competências da região como:

1 – os serviços ambientais (temperatura, ventos, umidade e chuvas);

2 – a água que representa mais de 40% da água doce do planeta;

3 – a presença dos minerais (ferro, alumínio, ouro, manganês, nióbio, estanho, níquel, diamante, petróleo e gás natural), e a proposta para adoção da permacultura para evitar ação predatória;

4 – produção do solo;

5 – energia das plantas obtidas com o babaçu, dendê e outras palmeiras;

6 – a farmácia da floresta, com seus produtos medicinais, como o guaraná, copaíba e outros que precisam ser estudados cientificamente;

7 – a vocação madeireira, que precisa de um manejo sustentável;

8 – os produtos florestais não madeireiros como as borrachas, couro-vegetal, óleos, fibras e plantas ornamentais;

9 – os produtos alimentares vegetais das palmeiras, árvores como a castanha, urucum, frutas;

10 – o artesanato com palha, sementes, instrumentos musicais etc;

11 – a aquicultura e a pesca (de subsistência e esportiva);

12 – o ecoturismo e estudos do meio.

No capítulo X, “Novos rumos para a Amazônia” (p. 330-363), Meirelles Filho lembra a importância de se ver a Amazônia com a presença do índio, do quilombola e do caboclo, que são os verdadeiros guardiões da floresta e que precisam ser reconhecidos como habitantes dessa região, com seus saberes nativos. Propõe cursos de formação e pagamento de bolsa-auxílio para fortalecer as ações de proteção da floresta, com a finalidade de evitar que ocorram ações predatórias na região. O autor lembra que muitos dos que exploram a Amazônia não vivem nela e é preciso fortalecer os guardiões da “última floresta do planeta”, para evitar sua pilhagem. Questiona as ações dos órgãos governamentais e as autorizações que são feitas para a exploração da terra e como é feita a fiscalização, e a cobiça dos grupos nacionais e internacionais. Apresenta propostas para a sociedade civil se organizar em defesa da Amazônia e também propõe cooperação internacional para os projetos de proteção desse território.

O autor termina o livro com a “Oração da Floresta Amazônica”, do padre Josafá Carlos de Siqueira, e faz um breve resumo de algumas lendas e crendices amazônicas sobre: Boto, Jurupari, Matinta Pereira, Muiraquitâ, Caapora, Cobra-grande, Mapinguari e Boi de Parintins. Além da vasta lista de referências bibliográficas consultada, Meirelles Filho também apresenta os endereços de websites pesquisados e um índice em ordem alfabética para os diferentes assuntos tratados no livro, o que facilita o trabalho de quem fizer uso da obra para pesquisar.

A luta dos Munduruku pelo território sagrado no Rio Teles Pires (Foto: Fernanda Morais)

O valor da leitura do livro de Meirelles Filho está na fundamentação científica que ele apresenta, com argumentos baseados em dados oficiais. Ele apresenta uma visão crítica de alguém que conhece muito bem a Amazônia e compartilha seus conhecimentos com quem quer conhecê-la. A clareza da linguagem e o detalhamento nos dados demonstram o cuidado que ele tem para defender a região e os povos tradicionais que nela vivem. Por isso, ele apresenta não apenas os problemas, como também propostas que podem ser adotadas para que o desenvolvimento sustentável da região. O livro tem uma estrutura bem definida no tratamento dos temas, e por isso é uma obra que pode ser consultada por estudantes interessados em pesquisar sobre a Amazônia.  

 

 

A fotografia acima é da Comunidade do Curralinho, na Ilha do Marajó, no Pará

(Foto: Instituto Peabiru)

 

Elvira Eliza França é mestre em Educação pela UNICAMP, especialista em Programação Neurolinguística pelo NLP Comprehensive dos EUA e graduada em Comunicação pela Universidade de Mogi das Cruzes (SP).  É autora dos livros: “Crenças que promovem a saúde: mapas da intuição e da linguagem de curas não-convencionais em Manaus, Amazonas” editado pela Valer e Secretaria de Cultura e Turismo do Amazonas (2002); “Corporeidade, linguagem e consciência: escrita para a transformação interior” (1995), “Dimensões interiores da escrita: a voz da criança interior” (1993), “Do silêncio à palavra: uma proposta para o ensino da filosofia da educação” (1988) e “Filosofia da educação: posse da palavra” (1984), publicados pela Editora Unijuí (RS).

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Recorde mineral: para quê?

Amazônia Real - ter, 14/11/2017 - 17:37

O Pará deverá bater em 2017 seu recorde histórico de produção mineral. Só no primeiro semestre deste ano, o valor da produção de minérios atingiu mais de 18 bilhões de reais, 41% superior ao de igual período de 2016. Em todo ano passado, que foi de crescimento em relação ao exercício anterior, o total alcançou R$ 28 bilhões.

A quase totalidade dos minérios extraídos do Pará é exportada. Assim, enquanto a indústria mineral brasileira respondeu por 14,1 bilhões de dólares das exportações no primeiro semestre de 2017, as mineradoras paraenses exportaram US$ 5,1 bilhões, mais de 36% do total nacional, segundo os dados do DNPM (Departamento Nacional da Produção Mineral).

O Pará, com a 9ª maior população e o 2º maior território, é o quinto maior exportador em geral, o 2º que mais apresenta saldo de divisas, o 5º maior gerador de energia e o 3º maior exportador de energia bruta, mas o 16º em Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), o 19º em PIB e o 21º em PIB per capita.

Como importou nesse mesmo período apenas US$ 50,6, o saldo de divisas proporcionado ao país pela economia mineral do Pará foi de US$ 5 bilhões, depositados nos cofres do Banco Central. De todos os minérios vendidos ao exterior, 76,3% foram de ferro e 17,5% de cobre.

Uma impressionante concentração – de mais de 90% – do que produz o segundo Estado minerador do Brasil, abaixo apenas (e por enquanto) de Minas Gerais, em duas únicas substâncias. As demais, que integram a pauta do comércio exterior, têm pequena participação: manganês, alumínio e caulim.

Essa concentração, única no país, impressiona ainda mais porque esses 90% são produzidos por uma única empresa, a antiga Companhia Vale do Rio Doce, privatizada em 1997. Esse peso aumentará ainda mais, por inacreditável que pareça.

O crescimento de mais de 40% na produção de minério no primeiro semestre deveu-se à entrada em operação do S11D, que elevará a produção de minério de ferro de 130 milhões para 230 milhões de toneladas anuais. Tornará o Pará a unidade federativa que mais produz e exporta minério de fero no planeta, 60% dele para a China.

Um incremento que se mantém, apesar de a tonelada do minério estar em US$ 50/60, um terço do máximo que alcançou, alguns anos atrás. A lógica predatória de conseguir mais valor com menor preço produzindo mais, muito mais. E talvez, assim, deslocando concorrentes do mercado, embora à custa de formar imensos estoques nos países importadores, especialmente na China – uma ameaça à recuperação dos preços pelos produtores.

O S11D estenderá a extração da jazida situada ao norte da província mineral de Carajás para o sul, onde o teor é ainda maior do que o da área atual de lavra, o mais rico que existe no mundo. O investimento foi de US$ 15 bilhões, uma vez e meia a mais do que o custo da hidrelétrica de Belo Monte, no Rio Xingu, projetada para ser a quarta maior do mundo.

Uma tecnologia de vanguarda, pioneira na história da exploração de ferro, que aboliu o uso de caminhões, substituídos por esteiras transportadoras, vai permitir uma atividade ainda mais veloz do que a de Serra Norte.

Em 40 anos, irá exaurir a jazida, sem igual em toda crosta terrestre. Quando a sociedade se aperceber do fato, só lhe restará chorar pelo leite derramado e a morte de Inês. Minério, como se sabe, não dá duas safras.

A compensação financeira pela exploração mineral, a CFEM, rendeu ao Estado R$ 341 milhões no primeiro semestre, menos de 2% do total. A mineradora Vale, líder disparada na economia paraense, é apenas a quarta em recolhimento de ICMS.

Paga quase 10 vezes menos do que o maior contribuinte porque o minério que exporta foi isento pela lei Kandir. Por coincidência, ela entrou em vigor exatamente no ano da privatização da Vale, desonerando as commodities quando exportadas.

Mais uma vez, um Estado minerador fica com o buraco do minério e o apito do trem.

 

 

A fotografia que ilustra este artigo é da vista do Complexo Minerador S11D a partir do Centro de Controle Operacional em Canaã dos Carajás, Pará ( Foto: Ricardo Teles/Agência Vale/2016)

 

 

Lúcio Flávio Pinto é jornalista desde 1966. Sociólogo formado pela Escola de Sociologia e Política de São Paulo, em 1973. Editor do Jornal Pessoal, publicação alternativa que circula em Belém (PA) desde 1987. Autor de mais de 20 livros sobre a Amazônia, entre eles, Guerra Amazônica, Jornalismo na linha de tiro e Contra o Poder. Por seu trabalho em defesa da verdade e contra as injustiças sociais, recebeu em Roma, em 1997, o prêmio Colombe d’oro per La Pace. Em 2005 recebeu o prêmio anual do Comittee for Jornalists Protection (CPJ), em Nova York, pela defesa da Amazônia e dos direitos humanos. Lúcio Flávio é o único jornalista brasileiro eleito entre os 100 heróis da liberdade de imprensa, pela organização internacional Repórteres Sem Fronteiras em 2014. Leia mais aqui. Veja outros artigos do autor.

 

 

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Belo Monte – Atores e argumentos: 12 – Argumentos deixados de lado

Amazônia Real - ter, 14/11/2017 - 16:41

O lado pró-barragem conseguiu, em grande parte, neutralizar os vários argumentos questionando Belo Monte. A maior parte da percepção popular e as reportagens na grande mídia retratam a barragem como um investimento sábio para o País, tendo impactos mínimos e sendo um projeto que é necessário para reduzir as contas de eletricidade e evitar apagões em lares brasileiros (e.g., [1]). No entanto, estas percepções estão enganadas em todos os sentidos.

Argumentos econômicos a favor da barragem foram efetivamente desmascarados [2, 3]. A barragem é economicamente indefensável, mesmo com os baixos custos de construção inicialmente previstos. Em 2013, o custo já era (pelo menos) o dobro da expectativa na época quando foi tomada a decisão de construir a barragem (e.g., [4]).

Na verdade, este é um padrão geral em todo o mundo, onde barragens normalmente custam muito mais do que as expectativas iniciais e levam mais tempo do que o esperado para completar. Uma revisão de centenas de tais casos ao redor do mundo mostra que este é o padrão normal, não uma exceção isolada ([5]; ver também: [6]).

No caso de Belo Monte, a inviabilidade financeira do projeto é sugerida pelo fato de que a administração do PT teve que usar todos os seus poderes de persuasão política com as empresas e entidades, tais como fundos de pensão, sobre as quais o PT tem influência, para investir no projeto contra a sua vontade (e.g., [7]).

 A empresa Camargo Corrêa, que foi envolvida no planejamento do projeto desde o início, serve apenas como um empreiteiro — não como um investidor com capital próprio de risco.

Os impactos ambientais, tais como as emissões de gases de efeito estufa, são geralmente pouco discutidos e são reduzidas as afirmações, sem suporte, de que a barragem representa energia “verde” ou “limpa” (e.g., [8]; ver [9]).

Os povos indígenas são retratados como não diretamente afetados, uma vez que os grupos a jusante não estão debaixo d’água. Os grupos a montante são ignorados completamente, sendo que as barragens a montante nunca são mencionadas. [11]

 

 

Notas

[1] Eler, A. & Diniz, L. 2011. Nocauteados pela lógica. Veja 44(49): 140-146. (07 de dezembro de 2011). http://acervoveja.digitalpages.com.br/home.aspx

[2] de Sousa Júnior, W.C. & Reid, J. 2010. Uncertainties in Amazon hydropower development: Risk scenarios and environmental issues around the Belo Monte dam. Water Alternatives 3(2): 249-268. http://www.water-alternatives.org/index.php/volume3/v3issue2/92-a3-2-15/file

[3] de Sousa Júnior, W.C., Reid, J. & Leitão, N.C.S. 2006. Custos e benefícios do Complexo Hidrelétrico Belo Monte: Uma abordagem econômico-ambiental. Conservation Strategy Fund (CSF), Lagoa Santa, MG. 90 pp. http://conservation-strategy.org/sites/default/files/field-file/4_Belo_Monte_Dam_Report_mar2006.pdf

[4] Veja. 2013. Custo da usina de Belo Monte já supera os R$ 30 bilhões. Veja, 12 de maio de 2013. http://veja.abril.com.br/noticia/economia/custo-da-usina-de-belo-monte-ja-supera-os-r-30-bilhoes

[5] Ansar, A., Flyvbjerg, B., Budzier, A. & Lunn, D. 2014. Should we build more large dams? The actual costs of hydropower megaproject development. Energy Policy 69: 43–56. doi:10.1016/j.enpol.2013.10.069

[6] Flyvbjerg, B. 2009. Survival of the unfittest: Why the worst infrastructure gets built – and what we can do about it. Oxford Review of Economic Policy 25(3): 344-367. Doi: 101093/oxrep/grp024

[7] Sevá Filho, A.O. 2014. Profanação hidrelétrica de Btyre/Xingu. Fios condutores e armadilhas (até setembro de 2012). pp. 170-205 In: de Oliveira, J.P. & Cohn, C. (Eds.). Belo Monte e a Questão Indígena. Associação Brasileira de Antropologia (ABA), Brasília, DF. 337 pp. http://www.abant.org.br/file?id=1381

[8] Fearnside, P.M. 2012. Desafios para midiatização da ciência na Amazônia: O exemplo da hidrelétrica de Belo Monte como fonte de gases de efeito estufa. pp. 107-123. In: Fausto Neto, A. (Ed.) A Midiatização da Ciência: Cenários, Desafios, Possibilidades. Editora da Universidade Estadual da Paraíba (EDUEPB), Campina Grande, PB. 288 pp. Disponível em: http://philip.inpa.gov.br/publ_livres/2015/Livro-Hidro-V1/Cap-16%20Livro%20Hidrelétricas%20V.1.pdf

[9] Fearnside, P.M. 2011. Gases de efeito estufa no EIA-RIMA da Hidrelétrica de Belo Monte. Novos Cadernos NAEA 14(1): 5-19. http://www.periodicos.ufpa.br/index.php/ncn/article/view/596/848

[10] Fearnside, P.M. 2017. Belo Monte: Actors and arguments in the struggle over Brazil’s most controversial Amazonian dam. Die Erde 148(1): 230-243. Doi: 10.12854/erde-147-18.

[11] As pesquisas do autor são finaciadas exclusivamente por fontes acadêmicas: Conselho Nacional do Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq: proc. 305880/2007-1; 5-575853/2008 304020/2010-9; 573810/2008-7), Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Amazonas (FAPEAM: proc. 708565) e Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA: PRJ15.125). Marcelo Augusto dos Santos Júnior preparou as figuras. Agradeço a Paulo Maurício Lima de Alencastro Graça pelos comentários. Esta é uma tradução atualizada de [10].

 

A foto que ilustra este artigo é  da manifestação da Caravana em Defesa do Rios Xingu e Tapajós, em Itaituba, no Pará (Foto: Ana Mendes/Amazônia Real)

 

 

Leia os artigos da série:

Belo Monte – Atores e argumentos: 1 – Resumo da série

Belo Monte – Atores e argumentos: 2 – A pergunta do por quê 

Belo Monte – Atores e argumentos: 3 – As empresas e as doações

Belo Monte – Atores e argumentos: 4 – A corrupção confessada

Belo Monte – Atores e argumentos: 5 – A ação da Dilma

Belo Monte – Atores e argumentos: 6 – A máquina judicial

Belo Monte – Atores e argumentos: 7 – A Igreja e as ONGs

Belo Monte – Atores e argumentos: 8 – Grupos indígenas

Belo Monte – Atores e argumentos: 9 – O início do movimento contra

Belo Monte – Atores e argumentos: 10 – A divisão do movimento

Belo Monte – Atores e argumentos: 11 – Celebridades, MPF, jornalistas e acadêmicos

 

 

 

 

Philip M. Fearnside é doutor pelo Departamento de Ecologia e Biologia Evolucionária da Universidade de Michigan (EUA) e pesquisador titular do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), em Manaus (AM), onde vive desde 1978. É membro da Academia Brasileira de Ciências e também coordena o INCT (Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia) dos Serviços Ambientais da Amazônia. Recebeu o Prêmio Nobel da Paz pelo Painel Intergovernamental para Mudanças Climáticas (IPCC), em 2007. Tem mais de 500 publicações científicas e mais de 200 textos de divulgação de sua autoria que estão disponíveis neste link.

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MPF manda parar processo de concessão da Ferrogrão por falta de consulta a povos indígenas

Instituto Socioambiental - seg, 13/11/2017 - 16:22

O traçado da estrada de ferro EF-170 corta as bacias dos rios Xingu e Tapajós e impactará ao menos 19 povos indígenas que não foram consultados

FerrogrãoConsulta prévia